domingo, 12 de março de 2017

O QUE A BÍBLIA QUER DIZER QUANDO AFIRMA QUE DEVEMOS ESPERAR NO SENHOR? - EMILIO NETO


Cristianismo, Comunismo e o Papa

"São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade” [1].

Poucas afirmações, em toda a história da humanidade, poderiam ser tão perturbadoras como essa, que foi proferida pelo papa (sic.) Bergoglio em entrevista publicada no jornal italiano La Repubblica.

Na verdade, se essa fala tivesse sido ventilada por algum ditador comunista ou psicopata alucinado - que são mais ou menos a mesma coisa - ela não deixaria de ser ofensiva e indigesta, todavia, não seria um produto diferente do que normalmente se deve esperar de ambos. Mas não. Ela foi pronunciada por um dos maiores representantes institucionais do cristianismo no mundo, o que faz qualquer indivíduo com razoável senso de realidade desvanecer em assombro diante de tão abjeta e pervertida apresentação dos fatos.

Vejamos se realmente comunistas pensam como cristãos e se, no pensamento cristão, um suposto grupo desfavorecido é que deve ditar as diversas políticas em uma sociedade. 

Metafísica

A "metafísica" dos comunistas ou marxistas é, com efeito, ontologia. Uma vez que sua visão é essencialmente materialista, para eles, não existe nada além do universo físico. Causas e arranjos inteligentes são apenas ordenações felizes de átomos, moléculas, formas e elementos.

A metafísica dos cristãos começa e termina com o ser eterno, puro, simples, absoluto e pessoal do Deus-Trindade, que é distinto do universo. Este é resultado de deliberada e teleológica criação. Além disso, o universo é movido e sustentado por uma ação imanente e exaustiva de Deus.

Filosofia da História

A filosofia da história dos comunistas ecoa muito bem seus pressupostos metafísicos, ou seja, não existe um ordenamento inteligente e proposital na história. A história é apenas uma sucessão de eventos no espaço-tempo sem significado objetivo algum.

A filosofia da história dos cristãos também deriva de sua metafísica. O mesmo Deus que criou o universo com um propósito específico conduz a história em seus mínimos detalhes para uma consolidação específica.

Epistemologia

A epistemologia dos comunistas é um assustador mosaico de ideias conflitantes e asserções injustificáveis. Ela, em seus melhores dias, se baseia no método científico da lógica indutiva e do empirismo. E, nos maus dias, quando se dá conta de que a indução e o empirismo não podem promover qualquer conhecimento real, afunda no niilismo.

A epistemologia dos cristãos parte de um ponto único e central, auto-autenticável e de amplo alcance filosófico, que é a Bíblia. A partir da Bíblia, todo o sistema de pensamento é construído por lógica dedutiva em um sistema racional redimido pela Escritura, inspirada por Deus.

Ética

A ética dos comunistas é uma ética arbitrária relativista, que não encontra nenhum fundamento mais sólido do que o próprio homem ou, em termos mais amplos, do que sociedades particulares. O certo e errado não são mais "certo e errado" do que se convenciona em dada cultura. Além disso, sua ética é situacionista e utilitarista, o que significa que os princípios morais estabelecidos pelos agentes éticos variam conforme as circunstâncias. O errado de hoje pode se tornar o certo de amanhã, sem problema algum.

A ética dos cristãos baseia-se em sua metafísica, de tal modo que se pode falar em umametaética. Os valores éticos são absolutos pois partem de Deus - de seu caráter e revelação. Eles também são objetivos porque têm o seu locus fora do homem.

Antropologia

A antropologia dos comunistas é materialista. O homem, em última análise, não é mais do que matéria. Não existe no homem nada que o torne especial senão sua inteligência superior. Essencialmente, homens e plantas não são diferentes.

A antropologia dos cristãos afirma que o homem é um ser especial, pois foi criado por Deus à sua imagem. O homem, mesmo nascendo em pecado e, portanto, merecedor da condenação divina, ainda assim é considerado por Deus como um ser distinto cuja vida e propriedades têm um valor especial.

Sociologia

Na sociologia comunista, o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. Os indivíduos não são realmente culpados por suas transgressões, antes, essa culpa é abstraída no coletivo, segundo o interesse do momento para o Estado. Os grupos minoritários é quem dão a tônica para certas políticas econômicas e de segurança, ao menos até que o Estado esteja fortalecido o suficiente para não precisar mais do artifício tático de separar os cidadãos em grupos e instigá-los ao conflito.

Na sociologia cristã, o homem nasce mau, corrupto e com ódio de Deus. Uma sociedade má é assim porque é constituída de indivíduos maus. Os indivíduos são culpados por suas transgressões e devem ser punidos por elas. Crimes que envolvem assassinato devem ser punidos com pena de morte. Os grupos minoritários não ditam nada. Nem tampouco os majoritários. A sociedade deve ser regida por leis que espelhem os valores divinos para sociedades, valores sempre baseados no indivíduo, no valor da vida humana, na propriedade privada e no livre comércio.

Política

Na estrutura política dos comunistas o valor da propriedade privada é questionado em função de uma suposta necessidade de igualdade social. A concentração de poder é outorgada ao Estado que deve se encarregar de cuidar dos cidadãos. Assim, a segurança dos cidadãos cabe ao Estado. A educação dos cidadãos cabe ao Estado. As posses dos cidadãos cabe ao Estado. As relações comerciais são controladas pelo Estado. O coletivo é posto como prioridade.

No pensamento político cristão a propriedade privada é, no sentido popular do termo, sagrada. Não deve haver igualdade social porque não é essa a vontade de Deus visto que, no sistema cristão, a pobreza não é necessariamente ruim, desde que o pobre tenha a dignidade do alimento e de uma estrutura básica para sobreviver. Quem distribui as riquezas é Deus e Ele o faz outorgando responsabilidades para o rico (para que faça um uso caridoso e responsável de suas posses) e para o pobre (para que confie na providência de Deus - que vem por intermédio do rico - e busque Nele sua esperança). Não há concentração de poder. O Estado é mínimo! A segurança dos cidadãos cabem, em primeira instância, a eles mesmos e, em última, ao Estado. A educação dos cidadãos cabem a eles mesmos e é desenvolvida no seio familiar. As posses dos cidadãos são suas. As relações comerciais devem ser livres. O indivíduo é posto como prioridade.

Diante do exposto, pergunto: Em que universo os pensamentos do comunismo e do cristianismo poderiam convergir para um ponto, qualquer ponto, em comum? Em que universo o cristianismo afirma que os pobres e "excluídos" devem ser os ditadores das asserções políticas?

Não há sequer um ÚNICO ponto de congruência entre as cosmovisões cristã e comunista.

A posição de Bergoglio acerca do cristianismo redefine o conceito de absurdo e nos constrange à oração: oração pelo Ocidente, oração pela consolidação do Reino de Deus e oração para que a graça divina alcance as principais autoridades intelectuais do mundo com discernimento e justiça.

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Notas e referências:

1. EFE. Papa diz que "comunistas pensam como cristãos", 2016. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/papa-diz-que-comunistas-pensam-como-os-cristaos/>. Acesso em 12 de nov. 2016

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Autor: Paulo Ribeiro
http://bereianos.blogspot.com.br/2016/11/cristianismo-comunismo-e-o-papa.html

sábado, 11 de março de 2017

COMO SABER SE SOU CRISTÃO? - GEORGE LUCAS (GEOLÊ)


Romanos 11:22-24 ensina que a salvação pode ser perdida?


Romanos 11. 22-24 ensina que a salvação pode ser perdida? E que depois de perdida pode ser recuperada? Vejamos:

Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado. E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!” Romanos 11. 22-24 - ACF

Paulo, argumentando contra a soberba gentílica (que foi um efeito colateral do orgulho israelense, por ser a nação eleita, que causou uma soberba nos gentios agora alcançados pelo evangelho, uma vez que se sentiam superiores aos judeus – que o recusaram), usa a alegoria da videira para ilustrar seu ponto de vista. Os gentios deveriam ver no exemplo da severidade divina dada aos judeus motivos para temer ao Senhor e demonstrarem gratidão ao invés de orgulho. 

O que deveria ser bastante óbvio para os gentios destinatários da epístola – o que nos inclui, é que se não fôra a graça imerecida do Senhor dada a nós, estaríamos na mesma condição. Mas a iluminação do evangelho gera nos eleitos a confirmação da soberana vocação – com um espírito humilde e obediente. “Nada pode separar o Corpo de Cristo de Seu Cabeça, e nada pode separar o cristão do amor de Deus, mas os povos gentios podem ser removidos de sua atual posição de privilégio” [1]; ou seja, o evangelho chegou aos gentios (como povo e não indivíduo), mas destes (assim como daqueles), apenas os escolhidos perseverarão.

Muitos que são chamados, mas não escolhidos; podem frequentar reuniões com cristãos verdadeiros por um tempo, mas a dureza do seu coração se manifestará em breve. “Em todo o NT a continuidade é o teste da realidade. A perseverança dos santos é doutrina firmemente alicerçada no ensino do NT (e não menos no ensino paulino), mas, o seu corolário é que são os santos que perseveram” [2]. Portanto, o chamado do evangelho é para todos. Destes, em muitos chamados, vemos a semente crescer, até que o sol a queime, ou os espinhos a sufoquem. Os santos (nas palavras de Bruce – ou escolhidos, nas de Cristo) são os que perseveram. Não são escolhidos por perseverarem, mas perseveram por serem escolhidos. Mas isto não anula a necessidade de exortação a perseverança – dada nossa natureza.

Assim, Paulo exorta a todos a examinar o que o juízo divino acarretou aos judeus (como nação); para entender que: 1 - indivíduos que por ora são vistos fora podem vir a responder positivamente a vocação (comparar Romanos 9.6 com 11.26: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas[...]. E assim todo o Israel será salvo” – ou seja, os judeus eleitos continuam sendo salvos desde a época do NT até em nossos dias); 2 - os gentios aqui tratados como nação devem se examinar (como indivíduos) da legitimidade da sua salvação.

As palavras de Jesus dão uma boa luz a perícope: “Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira (...). Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara” (Jo 15.2a, 6a). Os que se perdem, na realidade nunca estiveram nEle. Jesus, assim como Paulo exorta a permanência nEle, exorta a permanecerem (porque de fato estão) na bondade de Deus. O crente não pode basear sua segurança em seu mérito ou em sua confiança. É em Deus que ele está seguro. Ele apenas deve crer – lembrando que a própria fé é dada e confirmada pela ação do Espírito Santo – sendo efetiva apenas nos que Deus quer (elegeu). A ordem ao cristão é que use esta fé – se não usar, será cortado (mas assim como os eleitos respondem positivamente o chamado, respondem as exortações em obediência). Todo o que não usa – porque nem a tem (e nunca esteve de fato na Videira), é cortado. Todo o que a usa – porque ela é irresistível, permanece. O querer e o realizar pertencem a Ele. A exortação mostra que a eleição não diminui nossa responsabilidade.

Em Efésios 1.4 Paulo diz que os crentes são eleitos em Cristo, assim: “está muito claro que o Senhor agiu ‘por’ e ‘em’ aqueles que estão ‘em Cristo’. Mas, está igualmente claro que aqueles ‘em Cristo’ devem também agir: devem continuar; devem produzir fruto” [3]. O comentarista afirma que se alguém desprezar (as doutrinas) da eleição ou da responsabilidade está afastado do ensino do Novo Testamento. Mas, se alguém quiser afirmar que “compreende inteiramente o relacionamento entre estes dois fatores, esqueceu-se que Deus deixou algumas coisas a serem reveladas nos séculos vindouros – cf. Ef 2.7” [4].

A rejeição temporária dos judeus não deveria despertar nem orgulho, muito menos tropeço, mas temor a ser convertido em arrependimento – nos gentios. Se o povo eleito fôra vítima de rejeição, o que será do gentio não contrito? Calvino explica que nesta passagem (assim como em toda a carta), Paulo se dirige a cada crente individualmente, mas confronta gentios e judeus como grupos, e a rejeição/aceitação do grupo deve fazer com que cada indivíduo olhe com atenção para a sua situação. Deus não faz acepção de pessoas com relação a grupos, mas com relação a indivíduos (você pode não concordar, mas, como explicar a Esaú, Faraó, Judas, entre outros). Por isso o Israel (o que é realmente Israel) será re-enxertado. Por isso devemos sempre olhar com atenção e humildade para nossa condição.

Com base na ideia dos grupos, quando Paulo acrescenta uma condição: “se nela perseverares”; isso deve ser visto sabendo “que ele não está argüindo acerca de indivíduos que são eleitos, e sim acerca de toda a corporação” [5]. Ou seja, não é que Deus faça uma troca, persevere e serei misericordioso e lhe elegerei. “Pois a perseverança da fé, o qual consolida o efeito da graça divina em nós, emana da própria eleição” [6]. Mas sim como uma exortação aos destinatários da carta – romanos e nós também; como um grupo, que devem vigiar. Deste grupo, alguns perseverarão, outros não. 

Falando em responsabilidade humana, Murray, nos diz que Paulo não falava sobre a retidão ética obrigatória que todo cristão deve possuir, e que faz parte da perseverança. “A ideia é que ele tem de continuar no gozo da bondade de Deus; e isto é idêntico ao que lemos em Atos 13.43, onde os discípulos são exortados a perseverarem ‘na graça de Deus’. A implicação, entretanto, é que esta continuação está condicionada a humildade e à fé permanente, sobre o que recai à ênfase, nos versículos anteriores” [7]. Desta forma, aos eleitos é uma exortação de encorajamento, aos não-eleitos uma ameaça real.

Assim poderemos compreender a ameaça de corte em vista das doutrinas da eleição e perseverança. O crente, a pessoa eleita, precisa deste tipo de exortação para que não se entregue ao orgulho, tão contrário à condição da humildade requerida aos salvos. Vale ler o que Calvino complementa: “o apóstolo não está discutindo aqui a salvação específica de cada indivíduo, e, sim, está pondo gentios e judeus em confronto, uma corporação frente à outra. Então, ele não se dirige propriamente dito aos eleitos, mas àqueles que falsamente blasonavam de haver substituído os judeus” [8]. Sobre a questão da tensão enxerta/corta, novamente Calvino [9] tem algo a nos dizer: 

“Se com referência ao indivíduo surge à indagação: como é possível alguém ser cortado depois de ser enxertado? E: como, depois de ser cortado, pode ele ser enxertado novamente? – concebo três formas de enxerto e duas de corte (...). Primeira, são enxertados os filhos dos crentes, a quem cabe a promessa em decorrência do pacto feito com seus pais (na visão reformada do batismo infantil, a criança fica debaixo do conserto, mas não está absolvida nem do pecado Original, muito menos salva pelo batismo – está na mesma condição de um filho de um judeu que fora circuncidado e debaixo da promessa – nota minha). Segunda, são enxertados aqueles que recebem a semente do evangelho, a qual, ou nasce sem quaisquer raízes, ou é sufocada antes mesmo de produzir frutos. Terceira, são enxertados os eleitos, os quais são iluminados para a vida eterna pelo propósito imutável de Deus. Os primeiros são cortados quando rejeitam a promessa feita a seus pais, ou, em outros termos, movidos por ingratidão, na verdade não a recebem. Os segundos são cortados quando a semente é definhada e destruída. E assim, visto que este mal ameaça a todos no que diz respeito a sua natureza inerente, devemos reconhecer que esta advertência usada por Paulo, em certa medida, diz respeito aos crentes, para que não se entreguem a  indolência da carne. No que toca à presente passagem, deve bastar-nos que Deus ameaça os gentios com o mesmo castigo que infligira aos judeus, caso os imitassem.”

Nos versos 23-24, Paulo afirma que os “que pertencem a Israel” que não continuarem sendo incrédulos, “serão enxertados”. Isso não deveria nos gerar dúvidas. Incredulidade não é o pecado imperdoável, e através da dureza dos corações deles (judeus), é que chegou aos gentios – a nós, o evangelho. E até chegar o evangelho, também tramitávamos pela incredulidade. Assim como Deus foi poderoso para cumprir Seu propósito confirmando nossa eleição, Ele também é para enxertá-los novamente. Muitos gentios não eleitos apostataram, e muitos judeus eleitos, que por um tempo foram incrédulos, no tempo certo chegaram à verdade. A isso, cada um deve se esforçar em ser zeloso, e viver piedosamente, que andemos “como é digno da vocação com que fostes chamados” (Ef 4.1) seguindo “para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14).

O verso 23, no seu final, dá “o motivo pelo qual não falhará o enxerto” [10] – quando a incredulidade for banida, isso se dá pelo poder de Deus. A dureza da exortação de Paulo ainda reflete uma questão, os que já eram da videira, no caso de ser reintegrado, por serem ramos naturais, teriam maior facilidade de sorver a seiva. Já os gentios, os que eram oliveira braba (ou zambujeiro), por terem uma origem diferente dependem muito mais da misericórdia para usufruir da mesma seiva. Se o natural necessita do poder divino, quanto mais o não natural. Assim, por serem não-naturais, a humildade e reverência deveria ser evidente.

O “quanto mais” no verso 24 também não quer designar que seja mais fácil enxertar Israel. Reafirmo, o poder de Deus é necessário em ambos. A expressão só reforça o caráter do povo ao qual Deus fez e trouxe o pacto – o oferecendo para o mundo. Todos foram encerrados embaixo da ira (tanto judeus quanto gentios) para usar com todos de misericórdia (verso 32). Ninguém merecia. Todos dependem do poder e da graça de Deus. Mesmo sabendo que “serão enxertados na sua própria oliveira aqueles que são ramos naturais” [11]; como que filhos pródigos retornando a casa do Pai; os eleitos gentios se assemelham aos chamados pelas ruas para as bodas, diante da rejeição dos convidados. O convite é universal. Aos que depois de chamados, não apresentarem as vestes de núpcias (que o Pai dá a alguns), serão lançados fora.

Hoekema consegue fazer um panorama desta perícope da seguinte forma: “Paulo chegou a enxergar um certo método na maneira divina de agir com judeus e gentios: a queda de Israel conduziu à salvação dos gentios, e a salvação dos gentios está levando os judeus a se enciumarem. Esta interdependência da salvação dos gentios e judeus é o mistério ao qual Paulo se refere aqui – um mistério que agora foi revelado. Com a palavra ‘para que não sejais presumidos’ Paulo está advertindo seus leitores gentílicos a não se exaltarem acima dos judeus incrédulos” [12].

Assim, concluímos que:

1 – o texto não afirma que se possa perder a salvação, antes que o eleito perseverará, e as sementes que germinarem na pedra ou entre espinhos, não vingarão.

2 – Da mesma forma, afirma que a incredulidade de Israel é momentânea, e que foram rejeitados por terem sido enxertados por nascimento, não por terem sido enxertados e depois apostatado e para o propósito de dar lugar a formação da Igreja neotestamentária.

3 – Desta forma, assemelham-se a nós, enquanto não havíamos crido. Assim como nós, os “judeus foram salvos, estão sendo salvos e continuarão a ser salvos até o fim dos tempos” (13) – pelo eterno propósito e poder de Deus.

4 – O caso é que sua rejeição fora obra de Deus para que a proclamação chegasse às nações para atingir os eleitos gentios, gerando ciúmes nos judeus e com isso conduzindo os eleitos judeus ao arrependimento.

Os que dentre eles foram escolhidos para honra, receberão o dom de fé, da mesma forma que os gentios, formando todos o Israel de Deus (na Igreja não há nem judeu nem grego, apenas filhos de Deus). Paulo, querendo atingir e confirmar os gentios não perde de vista a esperança da promessa de conversão de seus patrícios. Portanto, nem a doutrina da eleição, nem a da perseverança são contraditas aqui, pelo contrário, são reforçadas.

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Referências:
(1) MACDONALD, William – Comentário Bíblico Popular Novo Testamento – Editora Mundo Cristão, p. 459;
(2) BRUCE, Frederick Fyvie – Romanos - Introdução e Comentário – Edições Vida Nova, p. 178;
(3) HARRISON, Everett F.; org. – Comentário Bíblico Moody – Mateus à Apocalipse – Editora Batista Regular, p 371;
(4) Idem;
(5) CALVINO, John – Romanos – Edições Parakletos, p. 415;
(6) Idem;
(7) MURRAY, John – Comentário Bíblico de Romanos – Editora Fiel, p. 452;
(8) CALVINO, op. cit., p. 416;
(9) Idem;
(10) MURRAY, op. cit., p. 452;
(11) Idem, p. 453;
(12) HOEKEMA, Anthony Andrew – A Bíblia e o Futuro – Editora Cultura Cristã, p 172-3;
(13) Idem, p 173.

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Autor: Alberto Oliveira
http://bereianos.blogspot.com.br/2016/11/romanos-1122-24-ensina-que-salvacao.html

sexta-feira, 10 de março de 2017

A MORTE É O NOSSO ÚLTIMO INIMIGO A SER VENCIDO? - EMILIO GAROFALO


É Possível que o Cristão Idolatre a Bíblia?


Alguns meses atrás, li o seguinte em um artigo por um autor que se auto-identifica como um evangelical: “Embora a Bíblia seja um guia importante e autoritativo para a fé e prática Cristã, ela não é o fundamento ou centro da nossa fé – Jesus é… Estudar as Escrituras é valioso, mas nem de longe tão valioso quanto cultivar um relacionamento diário com o Deus encarnado”.

Este autor tem várias visões que o fazem um ponto fora da curva no movimento evangélico como tem sido tradicionalmente definido. Entretanto, tenho percebido que sua visão das Escrituras está se tornando cada vez mais comum. Cada vez mais eu ouço sentimentos na Igreja como:
  • “Muitos cristãos estão colocando ênfase demais na Bíblia em vez de em Cristo e o Espírito Santo.”
  • “A Trindade não é Pai, Filho e Escritura Santa.”
  • “Cuidado para não fazer da Bíblia um ídolo.”

Daí a questão: É possível ao cristão idolatrar a Bíblia?

A Importância da Pergunta

Não devemos dispensar esta pergunta rápido demais. Me parece que quem expressa os sentimentos acima tem tido uma experiência ruim com a igreja ou com cristãos quando o assunto é a Bíblia. Eles encontraram vários cristãos que, embora conheçam bem a Bíblia, parecem “inflados” pelo seu conhecimento, tendo pouco amor por Cristo ou pelo próximo. A preocupação é que colocar tanto foco na Bíblia apenas repita estas experiências.

A Escritura diz que há um tipo de conhecimento que “infla” (1 Coríntios 8.1) mas outro tipo que é intimamente entrelaçado com o amor (Filipenses 1.9). Então, precisamos testar a nós mesmos: O meu estudo das Escrituras está gerando o Fruto do Espírito ou o fruto da arrogância? A Bíblia tem sido amplamente mal usada ao longo da história, então certamente devemos tomar cuidado para não a usarmos mal, nós mesmos, tornando-a em um veículo para o orgulho sobre quanto nós sabemos, em vez de sermos corretamente desafiados por ela a uma vida amável e humilde de serviço a Deus e ao próximo.

Além disso, Cristo repreendeu os fariseus em João 5.39-40 por conhecer as Escrituras e ainda assim não recebê-lo e crer nele como o Cristo. Então, novamente, precisamos testar a nós mesmos: O meu estudo das Escrituras é meramente acúmulo de conhecimento, como estudar um livro qualquer, ou está me ajudando a seguir Cristo como meu Senhor e amá-lo como meu Salvador? Em outras palavras, devemos compreender que é possível conhecer as Escrituras e ainda assim ignorar Jesus. Temos ainda que admitir que muitos cristãos têm tido interações com crentes e igrejas que tratam a Bíblia exatamente como os fariseus faziam.

Não devemos ficar surpresos com essa pergunta, mas devemos ser desafiados e ajudados por ela.

A Imprecisão da Pergunta

Ainda assim, tão importante e desafiador quanto a pergunta possa ser, ela está enraizada em um entendimento impreciso das Escrituras. Considere as descrições primárias da Escritura a partir da própria Bíblia:

Toda a escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3:16)
Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pedro 1:21)

Acrescente a isso que um dos nomes favoritos de Jesus Cristo é “O Verbo”, e você tem um testemunho trinitário de que a Bíblia não é divorciada da Trindade, mas é a obra tangível do Trino Deus em perfeita harmonia falando conosco.

Colocando de maneira simples, a Bíblia é a voz de Deus. O Pai inspira (sopra) a Palavra. O Filho é o Verbo encarnado. O Espírito Santo moveu os autores bíblicos para que eles falassem “da parte de Deus”. A Bíblia é a voz de Deus – não apenas as letras vermelhas – toda a Bíblia. Assim, a pergunta “É possível ao cristão idolatrar a Bíblia?” é imprecisa, porque ela nos leva a uma falsa dicotomia entre Deus e sua voz. Priorizar a voz de Deus é priorizar Deus, portanto priorizar sua voz não pode ser visto como idolatria.

Por favor, saiba, eu compreendo. As Escrituras e Jesus Cristo são entidades diferentes. A Bíblia e o Espírito são distintos um do outro. Mas isso não significa que nós possamos tratá-los assim, divorciando-os um do outro.

A Ilustração da Pergunta

Considere seu melhor amigo. Como, precisamente, você se relaciona com ele ou ela?Vocês podem trabalhar juntos, e ter hobbies em comum mas, primariamente, você conhece seu amigo por meio das palavras dele. Suas conversas e todas as interações verbais são essenciais para sua amizade.

Claro, tem muito mais a respeito dele que é não verbal – seu caráter, talentos personalidades – mas ainda assim, a maior parte do que você conhece sobre seu caráter, talentos e personalidade é conhecido por você por causa do que ele tem dito a você ao longo dos anos.

Você não tentaria separar seu amigo das palavras dele. Eles são entidades distintas, sim. Mas eles vêm juntos.

A Importância da Pergunta, Revisitada

Então voltamos à pergunta, “É possível idolatrar a Bíblia?” A resposta é um ressonante “Não”. Priorizar a Bíblia em nossas vidas está longe da idolatria. Priorizar a Bíblia é priorizar a voz de Deus para nós, e assim priorizar o próprio Deus.

Você pode usar mal a Bíblia, como descrevemos antes, mas se a Bíblia se descreve de maneira precisa, ela é a voz de Deus falando conosco. Conhecer a Bíblia é conhecer Deus – sua voz, seu caráter, seus atributos, seu reino, seu plano para nos salvar!

Aqui eu gostaria de perguntar ao autor da questão anterior: Como você e eu “cultivamos um relacionamento diário com o Deus encarnado” separados das Escrituras? Como podemos separar Cristo e sua voz de tal forma que nós possamos colocar um contra o outro ou clamar que ouvir sua voz pode tornar-se um ídolo? Se a Bíblia é como Jesus fala conosco, como podemos crescer num relacionamento com Cristo sem enfatizar ouvi-lo por meio de sua própria Palavra?

É aqui que eu acho a pergunta e os sentimentos descritos no começo bem perigosos. Na melhor das hipóteses, esses sentimentos nos avisam do mal uso, como nós vimos. Mas na pior hipótese, esses sentimentos nos dão uma razão massiva para nos afastarmos das Escrituras, assim nos distanciando da voz de Deus falando em nossas vidas.

A Bíblia não pode ser suficientemente enfatizada em nossas vidas, em nossos grupos pequenos, em nossas igrejas, pois ela é como nós ouvimos a própria voz de Deus falando conosco! Para cultivar um relacionamento diário com o Deus encarnado, precisamos ouvir sua voz. Que bizarro seria se preocupar com uma priorização excessiva com as palavras do seu melhor amigo? Se você quer conhecer seu melhor amigo, você vai ouvir as palavras dele.

Não perca a encorajadora verdade no meio desta discussão: Se a Bíblia é a voz de Deus, isso significa que você pode ouvir de Deus!

Então, amigo, vamos atender ao importante desafio que vem com essa pergunta, “É possível idolatrar a Bíblia?”. Vamos ser cristãos que crescem em amor e fé por meio das Escrituras. Mas não vamos nos confundir: Deus tem falado conosco por meio das Escrituras, então se nós formos realmente conhecê-lo e amá-lo, devemos fazer com que ouvi-lo seja uma prioridade apaixonada em nossas vidas.

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Autor: Tom Olson
Fonte: Unlocking The Bible 
Tradução: Daniel TC

quinta-feira, 9 de março de 2017

POSSO FAZER TATUAGEM? - AUGUSTUS NICODEMUS


SABENDO OUVIR

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2:11).

Certa vez, um índio veio visitar seu amigo na cidade grande. Enquanto caminhavam pelo meio da multidão, imersos no barulho da cidade, o índio voltou seus ouvidos para um lado e disse que estava ouvindo um sonoro cântico de pássaro. Seu amigo, com um rosto de incredulidade, disse que seria impossível distinguir um som desse tipo dentro daquela confusão de buzinas, furadeiras e carros. O índio respondeu: “basta saber ouvir”. Então pegou algumas moedas e as jogou no chão. Imediatamente os pedestres ao redor voltaram suas cabeças na direção das moedas. “Viu? Você dá ouvidos ao que lhe importa.”
O que os seus ouvidos ouvem? O que lhe chama a atenção? São as conversas imorais de seus colegas de trabalho? São os últimos comentários sobre se o seu time ganhou? Como nossos ouvidos denunciam o que está dentro do coração! Esta é a razão porque muitas vezes não damos ouvidos ao que Deus está dizendo. Ouvimos, mas não ouvimos. Os sons chegam aos nossos ouvidos, mas não chegam ao coração. Isto não é ouvir!
Precisamos aprender a ouvir. Não basta emprestar os ouvidos aos sons que chegam, é necessário aplicar nossa atenção sabendo que as palavras de Deus são mais importantes do que qualquer outra coisa. Nelas vamos encontrar direção, conforto, instrução, exortação e encorajamento. Por isso, é essencial prestar atenção. Se nos deixamos distrair como o que acontece ao redor, acabamos perdendo aquilo que poderia fazer diferença em nossas vidas. A atenção nos permitirá receber todos os benefícios da Palavra de Deus.
Além da atenção, precisamos de retenção. “Guardei a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti.” O inimigo de nossas almas tem todo o interesse em roubar a semente dos nossos corações. Por isso, é importante lembrar e relembrar o que Deus disse através de sua palavra. Se ela “habitar ricamente” em nosso coração, estaremos preparados para todos os desafios. Venceremos nosso inimigo espiritual, teremos sabedoria nas decisões e estaremos prontos a compartilhar nossa fé. Quanto mais plenos da palavra de Deus, mais fortalecidos estaremos.
Saber ouvir também significa meditar naquilo que ouvimos. Sem uma séria e cuidadosa reflexão, o que ouvimos permanece na superfície de nossas consciências, exercendo pouca influência. Através da meditação, a Palavra de Deus desce às profundezas do nosso ser, como o alimento que nutre cada célula do nosso organismo.
Finalmente, só sabemos se ouvimos corretamente a palavra de Deus quando a aplicamos em nossas vidas. Quem ouve a Deus confia nele e o obedece. Não basta ter doutrina correta, precisamos da prática que flui de nossas convicções. Nossos atos dizem o quanto realmente temos ouvido a Deus.
Atenção, retenção, meditação e aplicação. Aqui está o caminho para saber ouvir a Deus. Se você tem ouvidos, “ouça o que o Espírito diz às igrejas.”
Jorge Issao Noda

quarta-feira, 8 de março de 2017

O CRISTÃO PODE BEBER MODERADAMENTE? - AUGUSTUS NICODEMUS


O que significa ser discípulo?

Introdução
“Você quer ser igual a mim?” Na tradição judaica, quando alguém era convidado por um rabino para segui-lo era como se ouvisse esta pergunta instigante. Teria sido esta a mesma questão que ressonou na mente e no coração dos doze primeiros discípulos de Jesus? E, um pouco mais tarde, na mente e no coração do apóstolo Paulo? Para eles, sem dúvida, tratava-se de um chamado radical – imitar o rabino Jesus. Quais eram as exigências, os deveres, os estímulos, as dificuldades e as recompensas de ser um discípulo de Jesus? É o que vamos estudar a seguir.

Para entender o que a Bíblia fala

a) Em Mateus 10.1, Jesus dá autoridade àqueles que ele havia chamado para ser seus discípulos. Que tipo de autoridade era esta e para que servia?
b) Logo a seguir, Jesus afirma que “o discípulo não está acima do seu mestre” e que “basta ao discípulo ser como o seu mestre” (versos 24-25). Como podemos ser iguais a Jesus? Veja também 1 Coríntios 11.1 e Gálatas 4.19
c) Que dificuldades enfrenta um discípulo de Jesus? Veja os versos 34 a 39 e Lucas 14.33. Quais dessas dificuldades você já enfrentou? Compartilhe com o grupo.
d) Como você entende as recompensas do discipulado de acordo com os versos 40 a 42?
e) Um discípulo é alguém que permanece na palavra do seu Mestre Jesus (Jo 8.31), tem amor aos outros discípulos (Jo 13.35) e dá muito fruto (Jo 15.8), até chegar à maturidade, à plenitude de Cristo (Ef 4.13). Como e em que grau estas características têm marcado sua jornada de discipulado?

Hora de Avançar

“O que é seguir, senão imitar?” – Santo Agostinho

Para pensar

Mateus 10 talvez seja um dos capítulos da Bíblia mais importantes sobre o que significa ser um discípulo de Jesus. O capítulo começa com Jesus tomando a iniciativa, convocando os doze primeiros discípulos, investindo-os de autoridade para fazer as coisas que ele, o Mestre, fazia (versos 1-4). Após o convite para vir a ele, segue-se o envio, com diversas instruções (veros 5-15). Paul Bendor-Samuel comenta que “o fato de o convite para vir preceder a ordem para ir é um lembrete de que o ministério flui da intimidade”. Depois Jesus dá a eles alguns conselhos e palavras de encorajamento (versos 16-33), que serão essenciais diante das dificuldades por que passarão (versos 34-39). E fecha com a promessa das recompensas – a vida (v. 39) e o galardão, que nunca se perderá (versos 40-42). O início do capítulo seguinte também é muito interessante, porque relata que Jesus passou a ensinar e pregar nas cidades daqueles discípulos (Mt 11.1). Que privilégio!

O que disseram

“Não se trata simplesmente de um estado ontológico, uma questão de ter tomado uma decisão em um dado momento e pronto. Ser discípulo é um estado ativo de aprendizado e crescimento.” (Paul Bendor-Samuel, em Ultimato, set.-out. 2012, p. 50.)
“A razão de quase todas as nossas falhas é a facilidade que temos de esquecer nossa identidade como discípulos.” (John Stott, em O discípulo radical, Editora Ultimato)

Para responder

> Se Jesus aparecesse pra você agora e lhe fizesse a pergunta-convite, “Você quer ser igual a mim?”, o que você responderia?
> A que você tem renunciado para ser um discípulo de Jesus? Compartilhe sua resposta com um amigo ou com o grupo.
> Como a esperança de se tornar um dia 100% igual a Jesus o encoraja a prosseguir na caminhada cristã?

Eu e Deus

“Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Mt 4.18.)
“Segue-me!” (Mt 9.9)

Autora do Estudo Bíblico: Délnia Bastos
Este estudo bíblico foi desenvolvido a partir do artigo O que significa ser um discípulo de Jesus?, por Ed René Kivitz, publicado na edição 338 da revista Ultimato.

terça-feira, 7 de março de 2017

DÍZIMO É VÁLIDO PARA OS DIAS DE HOJE? - AUGUSTUS NICODEMUS


Podemos Perder a Salvação em Cristo?

Hebreus 6.4-8

Uma pessoa me perguntou se Hebreus 6.4-6 anularia a possibilidade de algum ex-cristão arrependido voltar a trilhar os caminhos do Senhor? A dúvida era: “A quem este trecho se refere?”. Uma outra questão, que surge com este texto, é a possibilidade de perda da salvação. Certamente já ouvimos muitas pessoas afirmarem que podemos perde-la. Na realidade, alguns chamam a certeza da salvação, “o orgulho dos Crentes”.

Essa noção está presente em algumas denominações de orientação teológica arminiana. Vários valorizam a manutenção de uma insegurança por “necessidade de preservar a vida cristã”.  Em meu entendimento, e assim ensina a teologia da Reforma, isso representa uma falta de compreensão do que a Bíblia ensina sobre a doutrina da salvação. No entanto, alguns reformados se surpreendem quando ouvem que a Confissão de Fé de Westminster apresenta a “certeza da salvação” como sendo algo adicional e não essencial à essência da fé real (CFW, Cap. 18, 3 e Catecismo Maior, Perguntas 81 e 172 do Catecismo Maior da CFW). A questão, então, não é se existe ou não “a certeza subjetiva”, ou pessoal, mas se o verdadeiramente salvo pode perder essa salvação. Afinal, um dos pontos principais da teologia bíblica, e da Reforma, é a Perseverança dos Santos.

Textos como Hb 6.4-6 podem nos deixar um pouco confusos, se forem estudados superficialmente, fora do contexto geral da Palavra de Deus. Precisamos, portanto, procurar entender algumas passagens bíblicas queparecem ir em sentido contrário à doutrina da Perseverança dos Santos.

1.     Duas passagens difíceis: Hebreus 6.4-6 e 2 Pedro 2.20-22 são dois trechos de difícil compreensão, mas analisemos cada um deles.

Alguns “provam o dom celestial” e caem, nos diz Hb 6.4-6: (4) É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, (5) e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,(6) e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

Alguns “escapam” do mundo, “conhecem”, mas voltam ao erro, nos diz 2 Pe 2.20-22: (20)  Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. (21) Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. (22) Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.

2.     As Exposição de João sobre o assunto – Precisamos estar cientes da exposição sobre a salvação que o apóstolo João faz no capítulo 10.26-28, do seu Evangelho e em suas três cartas universais, antes de abordar estes versos difíceis.

O Espírito Santo moveu João a registrar nesse trecho (João 10.26-28) o fundamento da doutrina da Perseverança dos Santos - “Ninguém as arrebatará”(26) Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Somos seguros nas mãos de Cristo não por nosso próprio poder, mas pelo poder de Deus. Salvação não é apenas um ato de vontade nossa, mas a vontade é um reflexo e resposta à obra de Cristo na Cruz; de sua vitória sobre a morte, na ressurreição; e ao chamado eficaz do Espírito Santo em nossos corações.

Na sua primeira carta, João deixa claro que existem pessoas agregadas ao povo de Deus, mas que nunca fizeram parte dos verdadeiramente salvos pelo poder de Cristo. “Saíram de nós, mas não eram dos nossos”, diz ele. Em 1 João 2.18-20, temos(18) Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. (19) Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (20) E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.

Em sua segunda carta João fala daqueles que não se prendem à doutrina de Cristo. Ele se referia à pessoa que“ultrapassa a doutrina” e diz que esse não tem Deus. Em 2 Jo 9, ele escreve: Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Entendemos que esse “ultrapassar” é o mesmo curso abordado por Paulo em Gálatas 1.8. Significa “ir além”, pregar um “outro evangelho”. A esses Paulo reserva palavras duras. Mesmo estando no meio do Povo de Deus, Paulo alerta seus leitores contra eles, e conclui que qualquer um que “...vos pregue evangelho que vá alémdo que vos temos pregado, seja anátema”. Ou seja, seja amaldiçoado aquele que ultrapassa a doutrina.

Na terceira carta, João chama atenção para o fato de que uma vida realmente transformada, realmente salva, não permanece no pecado. Aqueles que dizem ser salvos, mas não demonstram transformação de vida (e, infelizmente, sempre existem esses no meio do Povo de Deus), nunca viram a Deus. Em 3 João 11, ele fala dessa permanência na prática do mal:  Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o bem procede de Deus; aquele que pratica o mal jamais viu a Deus.

3.     O contexto das passagens difíceis. Mas voltemos às nossas passagens difíceis, agora examinando ocontexto imediato no qual elas são encontradas.

Hebreus 6.4-6, não pode ser lido isolado dos versos 7 e 8. Estes versos dizem: (7) Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus;(8) mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.

Vemos nesses dois versos a harmonia do texto em Hebreus, com a parábola do semeador, encontrada em Mateus 13.18-23. O v. 22 é de especial importância. O trecho, em Hebreus, não está falando dos verdadeiramente salvos, mas dos semeados em espinhos. Eles recebem a chuva, igual à que cai na terra fértil, ou seja, “provam o dom”, no sentido de que são participantes das bênçãos, mas são sufocados pelos cuidados do mundo. Muitos aparentam seguir o evangelho; fazem parte dos ajuntamentos e atividades das igrejas; mas o coração não está regenerado. O texto em Hebreus não fala em “perda da salvação”, nem em impossibilidade de um crente cair em pecado e não ter condição de se arrepender, mas daqueles que demonstram, ao longo do tempo, que nunca foram convertidos.

Semelhantemente, 2 Pe 2.20-22, deve ser lido a partir do verso 9. Os que “escapam” do mundo conhecem, mas voltam ao erro, são contrastados com os “piedosos”. O texto de Pedro diz: (9)Porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar sob castigo os injustos, para o dia do juízo; (10) especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, (11) ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (12) Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos, (13) recebendo injustiça por salário da injustiça que praticam. Considerando como prazer a sua luxúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; (14) tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos; (15) abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça (16) (recebeu, porém, castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta). (17) Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas;(18) porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, (19) prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.

O trecho claramente fala de ímpios. Eles conheceram o caminho da justiça, porque aderiram fisicamente à igreja, relacionaram-se com o Povo de Deus, ouviram incontáveis exposições da Palavra. No entanto, em seu espírito e em suas obras, nunca experimentaram conversão. Por isso, nos versos 20 a 22, eles são comparados a porcos que voltam ao vômito. Viviam em um clima limpo, eivado de ensinamentos proveitosos à vida. Levam sobre si a condenação de rejeitarem a tudo isso e ao Senhor da Glória.

Conclusão:
A Palavra de Deus deixa claro, em muitas passagens, que somos salvos para sempre. Por isso Paulo ensina em Romanos que Aquele que iniciou a obra em nós é poderoso para completá-la (Filipenses 1.6). Obviamente, isso não é encorajamento para o pecado, mas motivo de ações de graças – somos salvos pelo poder de Deus e preservados por este  mesmo poder, não por nossas frágeis forças.

Os dois trechos que examinamos ainda que difíceis, são entendidos pelas explicações de João e pelo contexto imediato das passagens. Devemos confiar no preservador da nossa salvação e nunca devemos nos abalar ou permitir que dúvidas sejam colocadas em nossa cabeça.


Solano Portela

segunda-feira, 6 de março de 2017

POSSO DESEJAR MORRER? - AUGUSTUS NICODEMUS


PLENA SATISFAÇÃO EM CRISTO

Rev. Davi Miguel Manço
Sinto-me muito feliz quando, depois de um dia de trabalho, passo a noite na companhia da minha esposa Renata, lendo juntos um bom livro ou assistindo com ela algo interessante na televisão, com nossa cadelinha “Mel” debaixo das cobertas conosco. Gosto também, em um desses dias frios de inverno, de contemplar a beleza do céu profundamente azul, sentindo o sol batendo de mansinho em minha face. É também prazeroso desfrutar uma boa refeição; realizar um trabalho bem feito e perceber que ele teve resultados; sentir que o analgésico fez efeito e a dor de cabeça passou... Tudo isso gera prazer e satisfação.
Contudo, devemos reconhecer: De que adianta contemplar o belo céu ensolarado que contrasta com o frio da manhã, sem reconhecer que estas coisas se sustentam pelo poder do Criador (Sl 19.1)? Que prazer e beleza haveria nisto, se tudo fosse matéria, reação físico-química? De que adianta viver o contexto de família, sem reconhecer que a intimidade, a sexualidade, a companhia do cônjuge, tudo isso é projeto de nosso Criador para nós? De que adianta desfrutarmos uma deliciosa refeição sem reconhecer a graciosa provisão de Deus? De que adianta ao homem levantar de madrugada, trabalhar duro, se não consegue vislumbrar que, ao fazer isto, presta culto ao seu Criador ao cumprir sua sagrada vocação? De que adianta ter saúde, somente para usar o vigor físico para cometer iniquidades contra Deus?
O que estou querendo dizer é que, em rebeldia contra o Criador, trabalho, comida, sexo, dinheiro, saúde, tudo é "vaidade e correr atrás do vento" (esse é o tema tão dramaticamente expresso pelo autor do livro de Eclesiastes).
Mas, por outro lado, se Jesus é o centro de nosso viver, se nossa satisfação está plenamente nEle, então:
1) Quando fazemos as coisas mais simples (comer uma boa refeição, ter momentos de lazer, experimentar alívio da dor) em tudo damos graças a Deus e assim glorificamos o Redentor (1Co 10.31).
2). Temos prazer em nosso trabalho, e o realizamos como serviço ao Reino. A nossa relação com Cristo transforma trabalho em vocação, e nos empenhamos nele para glorificar a Deus. Se não for assim, tudo não passa de canseira e enfado.
3) Ao pensarmos em sexo, a primeira coisa que nos vem a mente não é lascívia, nem auto-gratificação; é GRATIDÃO A DEUS, que criou algo tão maravilhosamente belo, profundo, íntimo e capaz de expressar amor de um modo singular no contexto do casamento.
A centralidade de Jesus em nossa vida muda a forma de ver o mundo. Entender biblicamente a realidade é reconhecer que só é possível ser verdadeiramente feliz se a nossa felicidade está em CRISTO JESUS antes de qualquer outra coisa; e firmada nossa alegria nEle, podemos nos alegrar com as coisas secundárias. Em outras palavras: as bênçãos “acessórias” - dinheiro, sexualidade, família, saúde, comida - são verdadeiramente bênçãos, e não pedras de tropeço para nós, quando as recebemos com ações de graças, louvando a Deus por elas, e usando-as com alegria para glorificar nosso Redentor.
Por outro lado, se o fundamento de nossa alegria é qualquer outra coisa que não o Senhor, então amamos mais as coisas criadas por Deus do que nosso Criador e Redentor. Isto faz de nós idólatras, o que nos conduz a duas considerações.
Primeiro, este mundo tem coisas muito boas e prazerosas, mas elas somente são assim porque Jesus as redimiu. Logo, nosso maior prazer deve estar em Cristo, que dá sentido a tudo que recebemos da parte de Deus. Sem a ação redentora dEle, o pecador dá uma direção pervertida às coisas que foram criadas boas por Deus. Na área da sexualidade, por exemplo, ao invés de usar essa dádiva no contexto do casamento, o pecador se entrega à promiscuidade (adultério, fornicação, homossexualismo, etc.). Só quando conhece Jesus, o pecador redimido passa a usar as boas coisas criadas da maneira planejada por Deus, para a glória dEle, e não para sua própria satisfação (fazendo do seu eu um “deus” e das coisas um ídolo). 
Em segundo lugar: se Jesus está no centro de nossa vida, reconhecemos que a vida presente, por causa da obra dEle, já é muito boa, mas ainda imperfeita; isto porque o pecado ainda macula e entristece a nossa vida. Sendo assim, ansiamos por uma era futura, em que na presença de Jesus, lágrimas não serão mais vertidas pelos salvos.
A vida aqui nessa terra está sob o efeito do pecado, e por isso coisas ruins acontecem. Mas por causa do Cordeiro de Deus, morto antes da fundação do mundo, desfrutamos de muitas coisas boas. Tudo de bom que temos aqui provem dEle! Aliás, devemos reconhecer que nosso pecado deveria ter causado a prevalência do sofrimento, do mal, da injustiça; é Cristo quem impede isso, afinal, Deus provisionou redenção em Jesus, de maneira que aqueles que são salvos continuam alegres e gratos a Deus mesmo quando as coisas vão mal.
O cristão, portanto, olha para tudo que existe e dá glória a Deus; mas como sua alegria está centrada em Jesus, anseia profundamente por sua volta, quando continuaremos a usufruir de muitas das coisas excelentes que já existem - e de outras ainda melhores -, mas sem as consequências destrutivas do pecado.
Se seu coração ama alguma coisa mais que Jesus, se você considera que falta algo para ser feliz, então Jesus não se tornou para você aquilo que de fato deve ser: O MAIOR TESOURO, A MAIOR ALEGRIA, AQUELE QUE  SATISFAZ PLENAMENTE.
Quem tem um relacionamento assim com Jesus, acorda todo dia e diz: “Cristo Jesus, obrigado pela alegria radiante que já desfruto em ti. Devo-a a ti. Senhor Jesus, para que tu sejas ainda mais glorificado: vem já! Volta Senhor, para que possamos conhecê-lo perfeitamente, para que toda lágrima seja enxugada de nossos olhos por causa da tua presença maravilhosa em nosso meio, e para que possamos contemplar a plenitude do belo, do bom, do justo e do amável, que somente a tua segunda vinda poderá trazer à luz. Sim, Maranata, vem Senhor Jesus!”