segunda-feira, 27 de março de 2017

Comentário de João Capítulo 6


Nota do tradutor:

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Se esse é o caso, então João 6 é certamente o golpe de misericórdia. Neste fascinante comentário elaborado pelo Dr. James White, temos a refutação de duas ideias errôneas — porém bastante distintas — que se propagaram no Cristianismo: a transubstanciação e a depravação parcial do homem. Assim como o autor, eu espero que este comentário seja útil para os crentes do Brasil e que ele ajude a Igreja brasileira a buscar um material teológico são. 

Erving Ximendes, agosto de 2016.



Introdução

Em nossa constante tentativa de satisfazer a necessidade de um material teológico saudável para a comunidade cristã, estamos disponibilizando esta tradução e comentário sobre o sexto capítulo de João. Nossa razão para isso é que queremos deixar a poderosa luz das Escrituras incidir sobre duas questões bastante distintas. Em primeiro lugar, as palavras de Jesus em João 6 são vitais para a nossa compreensão da doutrina da eleição dos santos de Deus. João 6: 38 é uma das mais claras exposições que temos da doutrina da salvação do Senhor. Por isso, a proclamação da verdade chegará ao ponto de corrigir os muitos erros — tanto dentro quanto fora — da comunidade cristã. Em segundo lugar, João 6:48 é uma passagem importante para lidar com a teologia sacramental e especificamente com os ensinamentos da Igreja Católica Romana no que diz respeito à transubstanciação e toda a sua doutrina da salvação. Esperamos que este comentário e tradução literal elaborada por James White, diretor do Ministério Alpha & Omega, sejam úteis para o ministério dos santos.

O sexto capítulo do Evangelho de João é um trecho fascinante de literatura — aparentemente narrado com grandes propósitos. Ele tem o dobro do tamanho médio dos capítulos de (registrados por) João. O capítulo narra dois grandes milagres — a alimentação dos 5.000 e Jesus andando sobre as águas — e os conecta para formar a introdução a um diálogo cristológico muito importante. Este diálogo, em seguida, termina na confissão de fé dos verdadeiros discípulos de Jesus.

COMENTÁRIO

1 - Algum tempo depois Jesus partiu para a outra margem do mar da Galiléia (ou seja, do mar de Tiberíades). 2 - E grande multidão continuava a segui-lo, porque vira os sinais miraculosos que ele tinha realizado nos doentes.

Comentário: Boa parte do ministério de Jesus está intimamente ligado ao Mar da Galiléia. João dá o que provavelmente seria o nome "romano" oficial para uma grande quantidade de água, embora este nome apareça com pouca frequência. A cidade de Tiberíades — nomeada conforme o imperador — tinha obtido esse nome apenas alguns anos antes da época do ministério de Jesus, daí a menção secundária feita por João. João fala de uma grande multidão que segue a Jesus, presumivelmente por terra e não pelo mar, por causa dos poderes de cura que Jesus possuía. Nenhuma menção é feita a uma suposta presença de enfermidade no meio desta multidão; as pessoas parecem muito mais atraídas à possibilidade de um milagre do que a qualquer outra coisa.

3 Então Jesus subiu ao monte e sentou-se com os seus discípulos. 4 - Estava próxima a festa judaica da Páscoa.

Comentário: Há possivelmente uma figura de retórica no verso 3, reminiscente do Sermão da Montanha, em Mateus 5: 1. Aparentemente, o Senhor e Seus discípulos chegaram à parte e subiram a montanha sozinhos. Se Jesus queria ter uma conversa particular com os discípulos, João não menciona isso. O que ele menciona, no entanto, é o fato de que a Páscoa estava próxima. Levando em conta o caráter não judaico de sua audiência, João menciona que a Páscoa é a festa dos judeus — um item que seria certamente desnecessário se o seu público fosse, em sua maioria, judaico. João pode apenas estar colocando os eventos em seus contextos históricos. Ou, ele pode estar atribuindo importância às ações de Jesus naquilo que vai acontecer mais adiante. Será que Jesus está colocando a si mesmo como o portador da verdadeira Páscoa? Se a Páscoa estava se aproximando, por que essas pessoas não estavam subindo a Jerusalém? Será que Jesus estava apontando para si mesmo como o cumprimento da Páscoa? O próximo capítulo começa com a Festa dos Tabernáculos — quase seis meses depois. Assim, parece haver um intervalo de tempo entre os dois capítulos, e, portanto, um propósito real por trás da menção da festa da Páscoa.

5 - Levantando os olhos e vendo uma grande multidão que se aproximava, Jesus disse a Filipe: "Onde compraremos pão para esse povo comer?" 6 - Fez essa pergunta apenas para pô-lo à prova, pois já tinha em mente o que ia fazer.


Comentário: João retrata Jesus vendo a multidão que vinha ter com Ele de longe. A princípio parece que Ele percebe que essa multidão estará com fome, pois teria viajado uma longa distância. Os evangelhos sinópticos, no entanto, indicam que um período de ensino interveio e até que esse ensinamento acabasse já seria tarde demais para que as pessoas voltassem as suas casas — daí a necessidade de comida.

Filipe parece ter sido a melhor escolha para o questionamento feito pelo Senhor, uma vez que ele era de Betsaida e, se isso aconteceu "na outra margem do mar", oposta a Cafarnaum, sua cidade natal estaria bem perto. Assim, voltando-se para o menino local, Jesus pergunta sobre as fontes de alimentação na vizinhança. Mas João é rápido em apontar que Jesus sabia o tempo todo o que iria fazer, a questão estava em testar a compreensão de Filipe sobre Sua própria pessoa e sobre Seu poder.

7 - Filipe lhe respondeu: "Duzentos denários não comprariam pão suficiente para que cada um recebesse um pedaço!" 8 - Outro discípulo, André, irmão de Simão Pedro, tomou a palavra: 9 - "Aqui está um rapaz com cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas o que é isto para tanta gente?”.

Comentário: A resposta de Filipe é de surpresa: todo o tesouro dos apóstolos provavelmente não continha dinheiro suficiente para comprar uma quantidade tão grande de alimentos, ainda que estivessem disponíveis. Ainda sem perceber o propósito do Senhor, André — que parece ter sido uma pessoa observadora, sempre levando as pessoas a Jesus — traz à atenção do Senhor a única fonte aparente de sustento: um menino que tinha cinco pães de cevada — o alimento do homem pobre — e dois peixinhos. Mas até mesmo André tem que acrescentar: "Mas o que é isso para tanta gente?". Ele ainda não conhece a suficiência daquilo que é pequeno nas mãos de Jesus.

10 - Disse Jesus: "Mandem o povo assentar-se". Havia muita grama naquele lugar, e todos se assentaram. Eram cerca de cinco mil homens. 11 - Então Jesus tomou os pães, deu graças e os repartiu entre os que estavam assentados, tanto quanto queriam; e fez o mesmo com os peixes.

Comentário: João enraíza firmemente na história o mais popular dos milagres de Jesus — a julgar pela inclusão deste relato em cada um dos evangelhos. Jesus dá ordens — Lucas, o historiador, observa que eles deveriam ser separados em grupos de 50 — e João se lembra de detalhes visuais, i. e., havia muita grama naquele lugar. A imagem é impressionante: um dia frio de primavera com um grande grupo de homens e mulheres — em um número maior que 5.000 — reclinando sobre a relva verde. Enquanto isso, os discípulos se perguntam o que o Senhor iria fazer nesse momento. Pode-se até imaginar o sorriso de João à medida que ele escreve — ou dita — esta parte do seu livro. Quão grande anseio ele deve ter tido de estar ali novamente!

Jesus tomou o pão e, como era seu costume, deu graças por isso. Infelizmente, a formulação exata desta oração não nos é fornecida — o máximo que podemos fazer é nos perguntar como foi que Jesus agradeceu por aqueles pequenos pães e peixes secos. João atribui importância a este ato, uma vez que ele o menciona novamente no verso 23.

No estilo típico, o milagre é narrado sem enfeites ou fantasias. É simplesmente afirmado que a comida foi distribuída aos que se reclinavam sobre a grama — com cada um tendo sua porção. O milagre está mais implícito do que diretamente declarado, embora não haja dúvidas de que ele realmente tenha acontecido.

2 - Depois que todos receberam o suficiente para comer, disse aos seus discípulos: "Ajuntem os pedaços que sobraram. Que nada seja desperdiçado". 13 - Então eles os ajuntaram e encheram doze cestos com os pedaços dos cinco pães de cevada deixados por aqueles que tinham comido.

Comentário: João continua a projetar outro ponto: que não só a comida havia sido suficiente para todos, mas, na verdade, havia sido mais do que o necessário. A graça de Deus era maior do que a própria necessidade. Em seguida, os discípulos ajuntam doze cestos cheios. Curiosamente, na narrativa dos evangelhos sinóticos, quando Jesus alimenta os 4.000, sete cestas maiores são retomadas, aparentemente indicando um excesso ainda maior do que a que aconteceu com os 5000.

14 - Depois de ver o sinal miraculoso que Jesus tinha realizado, o povo começou a dizer: "Sem dúvida este é o Profeta que devia vir ao mundo".

Comentário: Como resultado do sinal — não do ensino —, os homens estão convencidos de que Jesus é "o Profeta". Muitos veem isso como uma referência a uma crença do primeiro século no "Profeta" — como Moisés era em Deuteronômio 18: 18 — e que ela deve ser distinguida da crença de que Jesus era o próprio Messias. Outros veem uma relação similar entre Messias e Profeta. Eu prefiro a primeira opção.

15 - Sabendo Jesus que pretendiam proclamá-lo rei à força, retirou-se novamente sozinho para o monte.

Comentário: Jesus sempre é retratado por João como tendo a capacidade de conhecer os pensamentos dos homens. Parece, sem sombra de dúvidas, que essa capacidade é apresentada como um poder sobrenatural. Ainda assim, João não é o único a fazer isso. Marcos (2: 4-8) dá a mesma informação, embora não da maneira tão forte que João a fornece.

Os homens estavam prestes a vir e fazer de Jesus "rei". As multidões, como sempre, estavam procurando o conquistador político/militar que poderia livrá-los da tirania romana. No entanto, se estes homens estavam procurando o "Profeta", ao invés do Messias, existe a possibilidade de termos aqui a conexão feita posteriormente pelo próprio Jesus: o "Profeta" será semelhante a Moisés, e Moisés deu ao povo o maná no deserto. Assim, se Jesus é capaz de dar o "maná" no deserto moderno, Ele não deveria ser "profeta" assim como Moisés? A maneira que as expressões "o Profeta" e "fazê-lo rei" se encaixam é difícil de determinar, e depende da teoria que você adere quanto às crenças messiânicas do primeiro século. Embora o aspecto militar seja forte nos evangelhos sinóticos, ela não parece ser tão prevalente aqui.

Jesus se desvia dos planos precipitados dos homens e vai sozinho para a montanha. Possivelmente os próprios discípulos corriam o perigo de serem levados pelo frenesi da multidão. Nos relatos dos evangelhos sinópticos, eles nunca desistem da ideia de um herói/messias militar, e isso pode estar presente aqui também.

16 - Ao anoitecer seus discípulos desceram para o mar, 17 - entraram num barco e começaram a travessia para Cafarnaum. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha ido até onde eles estavam. 18 - Soprava um vento forte, e as águas estavam agitadas. 19 - Depois de terem remado cerca de cinco ou seis quilômetros, viram Jesus aproximando-se do barco, andando sobre o mar, e ficaram aterrorizados.

Comentário: João faz uma transição muito natural até a próxima parte deste dia agitado — e ao próximo milagre também. Os discípulos decidiram ir a Cafarnaum. A repentina isolação de Jesus bem no momento em que eles esperavam que Ele fosse aceitar os elogios da multidão deve ter-lhes causado consternação. Será que Jesus tinha dado instruções de atravessar a Cafarnaum? Será que eles descobriram que Jesus queria que eles fossem para lá? Será que eles estavam abandonando a Jesus? João não diz nada a respeito e somos deixados apenas com perguntas. João observa que já estava escuro quando eles entraram no barco — uma coisa perigosa a se fazer sobre as águas traiçoeiras do mar da Galiléia. Talvez eles tivessem esperado o máximo que puderam, e só agora haviam cedido e começado a atravessar o mar.

Enquanto estavam no mar, um "grande vento" surgiu — uma ocorrência comum em climas desérticos. João nos diz que os homens estavam quase na metade do caminho quando Jesus veio a eles — não muito longe dado o fato de que muitos deles eram pescadores e seriam habilidosos em viagens aquáticas. O vento estava, obviamente, contrário a eles. Os evangelhos sinópticos nos dizem que a essa hora já era muito tarde da noite. Marcos nos diz que estavam na quarta vigília (Marcos 6:48).

Não sabemos quem foi o primeiro a ver Jesus andando sobre as águas, mas o choque certamente deve ter sido grande. Todo tipo de possível explicação naturalista tem sido oferecida para este milagre, mas o texto simplesmente não as permite. Jesus vem em direção ao barco, andando sobre as águas, e os homens ficam com medo — o que é bastante compreensível, dada a situação.

20 - Mas ele lhes disse: "Sou eu! Não tenham medo!" 21 - Por isso eles quiseram recebê-lo no barco e logo após Ele entrar, se encontraram na costa para a qual estavam indo.

Comentário: Jesus rapidamente se identifica ao perceber o medo de Seus discípulos. João não fornece tantos detalhes quanto Mateus (14: 22-27). Sua narrativa é bastante autodisciplinada. A identificação de Jesus acalma os medos dos discípulos e Ele então entra no barco.

A próxima cláusula parece indicar mais um evento miraculoso: o transporte imediato do barco e dos homens para o seu local de destino. Os relatos sinópticos não dão qualquer indício disso e Mateus 14: 34 parece indicar exatamente o contrário. O milagre observado pelos escritores sinópticos é a cessação imediata da tempestade — que pode ser o que João está fazendo alusão aqui —, i. e., uma vez que o mar havia se acalmado, eles chegaram ao destino rapidamente  — ou "imediatamente".

22 - No dia seguinte, a multidão que tinha ficado no outro lado do mar percebeu que apenas um barco estivera ali, e que Jesus não havia entrado nele com os seus discípulos, mas que eles tinham partido sozinhos. 23 - Então alguns barcos de Tiberíades aproximaram-se do lugar onde o povo tinha comido o pão após o Senhor ter dado graças. 24 - Quando a multidão percebeu que nem Jesus nem os discípulos estavam ali, entrou nos barcos e foi para Cafarnaum em busca de Jesus. 

Comentário: Este parágrafo introduz um novo cenário e ainda assim fornece continuidade com o que foi dito anteriormente. A multidão, que parece ter passado a noite na zona rural circunvizinha, vê que os discípulos partiram sem Jesus. Eles obviamente ficam perplexos quanto ao local onde o Senhor poderia estar. Então, embarcando em pequenos barcos provenientes de Tiberíades, eles atravessam o mar e voltam para Cafarnaum em busca dEle.

A frase "... após o Senhor ter dado graças" no verso 23 é um pouco estranha e gerou algumas variações textuais. Uma possibilidade seria "depois de dar graças ao Senhor", embora o genitivo não seja normalmente encontrado nesta forma.

25 - Quando o encontraram do outro lado do mar, perguntaram-lhe: "Mestre, quando chegaste aqui?" 26 - Jesus respondeu: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.


Comentário: Aqui a multidão encontra o Senhor Jesus e obviamente faz a seguinte pergunta: "Como você chegou aqui?". Ao invés de respondê-la, o Senhor trata diretamente da motivação que a multidão tinha para buscá-Lo. Ele declara que o que Ele havia feito não tinha como propósito apenas a alimentação de um grande grupo de pessoas, mas sim uma razão especial. Parece óbvio que o milagre foi realizado para apontar Jesus como o novo Moisés — e ainda mais que isso — e como o cumprimento da Páscoa — e ainda mais que isso. Como Jesus irá em breve falar, o pão que Ele deu aos homens representa muito mais —na verdade, ele representa o "pão da vida".

27 - Não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem lhes dará. Deus, o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação.

Comentário: Jesus aconselha seus ouvintes a priorizarem aquilo que é valioso. A ênfase errada que eles tinham — claramente vista na motivação para buscá-Lo — é comparada aqui a busca pelo pão que se estraga, ao invés do pão que "permanece para a vida eterna". Este pão, por sua vez, é encontrado em apenas um: o Filho do Homem. Este é o pão que o Pai — o próprio Deus — selou/separou — colocou sua marca nele, por assim dizer. Ao longo deste discurso, Jesus irá fazer uma conexão íntima entre Sua pessoa e a vida eterna que Ele dá. Não se pode ter a vida eterna sem ter uma compreensão adequada dAquele que a dá: o Senhor Jesus Cristo.

28 - Então lhe perguntaram: "O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus requer?" 29 - Jesus respondeu: "A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou".

Comentário: O uso do termo "trabalho" no versículo 27 induz a pergunta feita ao Senhor: "O que devemos fazer para realizar as obras de Deus?". Parece haver uma mudança de foco aqui, uma vez que é provável que a multidão ainda estivesse presa ao milagre ao invés de seu significado. Ou seja, o que eles queriam realmente saber era como poderiam realizar os milagres que Jesus fazia. A resposta de Jesus, assim como suas respostas à mulher no poço, redireciona magistralmente a conversa aos seus objetivos. A obra de Deus, Jesus diz, é crer nEle! Esta é a obra de Deus. Nossos sentidos são frequentemente insensíveis ao tremendo impacto de declarações como esta, devido à nossa familiaridade com a pessoa do Senhor Jesus. Mas é importante tentar entender esse tipo de declaração no contexto em que ela foi originalmente proferida. Nenhum profeta de Israel ousou proferir tais palavras! Eles sempre colocavam o foco exclusivamente em Deus e bem longe deles. Jesus, no entanto, igualou as "obras de Deus" com a fé em Sua pessoa. Quão impetuoso! A menos, é claro, que Jesus seja quem Ele afirme ser nos relatos de João. Os conceitos modernistas de um profeta/professor visionário da Galiléia que era um homem bom, mas certamente não um Messias divino são ridicularizas se expostas a declarações como estas. Nenhum "homem bom" iria igualar a obra de Deus com a fé depositada nele mesmo! A imensidão desta Pessoa Divina é claramente retratada aqui, embora muitas vezes esquecida em uma leitura casual!

30 - Então lhe perguntaram: "Que sinal miraculoso mostrarás para que o vejamos e creiamos em ti? Que farás? 31 - Os nossos antepassados comeram o maná no deserto; como está escrito: ‘Ele lhes deu a comer pão do céu’".

Comentário: Se nós, os modernos, deixamos escapar a importância das palavras de Jesus, os ouvintes de sua época certamente não deixaram. Eles imediatamente responderam — observe a conexão de suas perguntas com o que foi dito antes —  pedindo por sinais e argumentando o seguinte: "Se temos que acreditar em você, precisamos de mais sinais. Você nos deu apenas um e, ainda assim, os nossos pais comeram o maná no deserto não apenas uma vez, mas por muitos anos!". Jesus terá que fazer mais do que um único jantar para poder disputar com o maná!

32 - Declarou-lhes Jesus: "Digo-lhes a verdade: Não foi Moisés quem lhes deu pão do céu, mas é meu Pai quem lhes dá o verdadeiro pão do céu. 33 - Pois o pão de Deus é aquele que desceu do céu e dá vida ao mundo".

Comentário: A citação retirada de Salmos 78: 24, dada pelo povo, identifica especificamente o Senhor como o "Ele" que havia dado o pão no deserto. Possivelmente o povo estava relacionando isso — diretamente ou por implicação — a Moisés, e, portanto, Jesus os corrige. Ou isso ou eles estão fazendo a comparação entre Ele — a quem alguns tinham dito "este é verdadeiramente o Profeta" — e Moisés, e, portanto, Jesus está corrigindo a incompreensão deles em relação a Sua pessoa. Ao invés disso, a fonte do "verdadeiro pão" é o Pai. O Pai deu o maná no deserto, mas agora está dando — tempo presente— o "verdadeiro pão do céu" que não é um alimento perecível, mas sim uma pessoa: "aquele que desceu do céu". Mais uma vez a magnitude destas palavras deve ser aproveitada. Em todo caso, as primeiras coisas —tão preciosas para o povo de Israel — são ofuscadas pela vida e pelo ministério de Jesus, e ainda mais por Sua própria pessoa! O verdadeiro pão é uma pessoa que desceu do céu. Não é de se admirar que os intérpretes liberais, que desejam manter suas opiniões míticas e"psychologizcd" sobre Jesus e sua suposta falta de conhecimento sobre Sua própria missão divina até mais tarde em seu ministério, rejeitam a historicidade da obra de João. Um homem que se descreve como alguém que "desceu do céu” obviamente tem uma visão divina acerca de suas origens!

Existe também outro paralelo — mas incompleto, é claro —: assim como o maná desceu do céu e forneceu o sustento para o povo de Deus durante a sua permanência, Jesus também desceu do céu para ser o sustento do povo de Deus — e de sua salvação. Jesus irá utilizar este tipo de simbologia dualista durante todo esse discurso, referindo-se à realidade física do maná para representar a realidade espiritual da fé nEle. Lamentavelmente, esse dualismo foi perdido pela igreja romana, que lê nesta passagem a sua própria doutrina errônea da transubstanciação, e, assim fazendo, inverte a direção que o próprio Senhor está tomando na conversa. Eles, assim como os ouvintes do primeiro século, não conseguem enxergar a realidade por trás do símbolo.

34 - Disseram eles: "Senhor, dá-nos sempre desse pão!" 35 - Então Jesus declarou: "Eu sou o pão da vida. Aquele que vem a mim nunca terá fome; aquele que crê em mim nunca terá sede.

Comentário: A multidão continua em sua cegueira, incapaz de ver o verdadeiro significado das palavras de Jesus. Ainda lembrando da alimentação dos 5.000, eles clamam pelo fornecimento contínuo do pão celestial. Em resposta, Jesus é bem específico: Ele mesmo é o pão. Aquele que "vem a mim", uma clara referência à fé — como o paralelo irá mostrar —, não terá fome — daí, o pão é espiritual, não natural — e aquele que "crê em mim" nunca mais terá sede. A referência à sede parece um pouco fora de contexto aqui, uma vez que até este ponto apenas temos tratado de alimento. Mas a verdade é que não existe nenhuma dificuldade, pois Jesus não está se referindo ao consumo físico de alimentos, Ele está se referindo à necessidade espiritual. O homem tem uma necessidade espiritual — símbolo: fome e sede — e Jesus atende a essa necessidade por completo e para sempre. Os termos "vir" e "acreditar" irão se tornar "comer" e "beber" no verso 54. Existe uma clara progressão nestes termos que será registrada no comentário.

36 – Mas como já vos disse, vós me tendes visto, e contudo não credes.

Comentário: O Senhor conhece os seus corações, seus pensamentos, suas mentes. Apesar de eles terem confessado que Jesus era um profeta (verso 14), Ele sabe que eles não "creram", pois este não é o nível mais alto e mais verdadeiro de fé que João descreve em seu evangelho. Apesar de eles terem visto o pão da vida, não acreditaram nEle. Eles foram confrontados com a revelação do próprio Deus, mas não a aceitaram. No versículo 40, Jesus irá dizer que todos os que "olham" (theoron) para o Filho têm a vida eterna. Aqui Ele diz que eles têm visto (heorakate) a Ele. Mais uma vez temos aqui o dualismo de João. O que se segue, até o versículo 47, parece ser uma explicação para a rejeição por parte desses discípulos distintos (v. 66) quando confrontados com a realidade da Sua pessoa. A diferença entre aqueles que irão ficar com Jesus e aqueles que se afastam é simplesmente essa: a atração do Pai.

37 - Todo o que o Pai me dá, virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora; 38 - porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. 39 - A vontade daquele que me enviou é esta, que eu nada perca de tudo o que ele me tem dado, mas que eu o ressuscite no último dia.

Comentário: Esta seção continua o pensamento do versículo 36. Jesus apresenta a completa soberania de Deus na salvação. Todo o que o Pai dá a Jesus virá a Ele. O fator operativo em responder à pergunta do por que alguns vêm a Jesus e outros — quando expostos a mesma oportunidade — não é simplesmente a natureza da escolha do Pai. O Pai "dá" pessoas ao filho — um presente de amor, com certeza. Quando o Pai "dá" ao Filho uma pessoa, essa pessoa virá a Cristo — que é o único caminho para o Pai. Não há dúvida de que se uma pessoa é dada a Cristo — ou, usando a terminologia do verso 44, é atraída pelo Pai — ela virá a Ele. Este é o lado divino da salvação: absoluta certeza e segurança. No entanto, Jesus também menciona a resposta humana — não que o ser humano possa mudar a decisão de Deus, mas que a resposta humana também está lá. O homem não é retratado apenas como uma "coisa" pulando de um lado para outro, mas sim como uma pessoa muito importante que vem a Cristo para a salvação, e isso conforme o resultado da obra da Graça de Deus em sua vida.

Jesus continua dizendo que quando alguém é dado a Ele pelo Pai — e vem a Ele —, esse alguém está seguro em seu relacionamento com Ele. Ele nunca irá lançá-lo fora. O subjuntivo aorista de forte negação deixa claro que a suposta rejeição de quem busca refúgio em Cristo é uma impossibilidade completa e total. Que palavras bonitas para o coração do pecador! Aqueles que vêm a Cristo irão descobrir que Ele é um Senhor amoroso que nunca lançará fora os que confiam nEle!

Por que o Senhor nunca lançará fora aqueles que vêm até Ele? O verso 38 explica: o Filho veio para fazer a vontade do Pai. E qual é a vontade do Pai? Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia. Será que podemos duvidar que Cristo fará aquilo que promete? Será que o Senhor Jesus irá falhar e não realizar a vontade do Pai? Aqui temos, sem sombra de dúvidas, a segurança eterna do crente. Mas note que, mais uma vez, tudo está preeminentemente equilibrado. A segurança do crente é baseada em duas coisas: a vontade do Pai de que nenhum se perca e, em segundo lugar, o fato de que aqueles que não se perdem são os mesmos que são dados ao Filho pelo próprio Pai. Assim, na realidade, há segurança no Pai — Ele nos dá a Cristo — e segurança no Filho — Ele sempre faz a vontade do Pai.

Uma observação interessante é encontrada no fato de que no versículo 37, o termo "todo" significa, literalmente, "todas as coisas" — i. e, temos um termo grego neutro não masculino. Mas na frase seguinte, onde se lê e o que vem a mim, de modo nenhum lançarei fora..., o primeiro "o" é masculino — i. e., pessoal. Para mim, isso parece ser proposital da parte de João, e a mesma diferenciação de neutro/masculino, coisa/pessoa é encontrada no verso 39. Eu acho que essa diferenciação ocorre pela seguinte razão: quando se está na perspectiva do decreto absoluto e eterno de Deus, João usa o termo neutro para se referir ao conjunto desse decreto — que inclui todos os indivíduos eleitos por Deus. Mas quando estamos na perspectiva da resposta pessoal do indivíduo, ele volta a usar o pronome pessoal masculino.

40 - Porque a vontade de meu Pai é que todo o que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia".

Comentário: A "vontade do Pai" para o Filho foi expressa no verso 39 e agora é expressa de forma diferente. Mais uma vez, é apresentado o equilíbrio perfeito e completo entre o papel de Deus e a resposta do homem na salvação. No versículo 39 temos a garantia do sucesso do Filho em salvar aqueles que foram dados pelo Pai. No versículo 40 temos a promessa de que todos os que olharem para o Filho e acreditarem n'Ele terão a vida eterna. Pelo que lemos acima, é evidente que muitos olham para o Filho, mas não acreditam. A diferença operativa está na atração — ou "capacitação" — do Pai. Aqui está claro que o termo "todo" refere-se aqueles mencionados no contexto imediato, ou seja, todos aqueles que o Pai deu ao Filho. Para esses, é o olhar e o acreditar que traz a vida eterna — uma vez que a atração do Pai é invisível para eles —, eles veem somente a Cristo.

Deve-se notar que uma "doutrina" excepcionalmente elevada acaba de ser apresentada aqui. Será que ela não está fora de lugar? Seria de se esperar que este tipo de ensino estivesse em Efésios ou Filipenses — ou talvez estivesse mais "em casa" nas Institutas de Calvino —, mas entre uma multidão de galileus na sinagoga de Cafarnaum? Será que realmente devemos nos assustar com o fato de que as pessoas acharam as falas de Jesus "difíceis de ouvir"? Por que então essa "doutrina elevada" se encontra aqui?

Eu sinto que a resposta dos homens, que tentava projetar um plano puramente físico a partir dos ensinamentos espirituais de Cristo — o que é demonstrado pela sua incapacidade de enxergar a realidade espiritual por trás do símbolo físico —, induziu uma explicação da parte de Jesus. Por que as pessoas respondem de maneiras tão diferentes a Suas palavras e obras? Jesus não está à procura de seguidores no nível que eles se encontravam: eles precisavam saber a verdade de sua missão. Ele veio buscar e salvar o perdido — mas não todos os perdidos. Aquele que o Pai deixa em sua própria escuridão irá responder a Cristo de maneira muito diferente daquele que foi dado a Ele pelo Pai. É hora de separar os verdadeiros dos falsos discípulos, os chamados daqueles que são caprichosamente interessados. A "doutrina elevada" não é nada mais do que a verdade em sua forma mais pura. Ela foi criada tanto para o teólogo como para o agricultor.

41 - Com isso os judeus começaram a criticar Jesus, porque dissera: "Eu sou o pão que desceu do céu". 42 - E diziam: "Este não é Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe? Como ele pode dizer: ‘Desci do céu’?”.

Comentário: A reação humana da multidão não é surpreendente. A afirmação de Jesus finalmente a penetrar suas mentes, embora eles pareçam estar fugindo da mensagem do Senhor! Eles começam a criticá-lo por causa de Sua reivindicação de origem celeste. As perguntas são simples: Não é este Jesus, o filho de José? Podemos nos opor ao termo "filho de José", uma vez que Jesus nasceu de uma virgem, mas isso pode não estar na mente de João — ao menos não aqui. A ênfase está mais sobre o fato de que a família e as origens de Jesus eram conhecidas na sinagoga de Cafarnaum — eles conheciam a família do Senhor. Pensando em termos estritamente humanos — não entendendo a declaração do próprio João de que o Verbo se tornou carne, ou seja, da natureza dual do Senhor — como poderia este cujos pais conhecemos afirmar que "desceu do céu"?

43 - Respondeu Jesus: "Parem de fazer-me críticas. 44 - Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia.


Comentário: Jesus deixa de lado as queixas e acusações dos homens ao apontar a incapacidade deles aceitarem Suas afirmações sobre si mesmo. Em termos ainda mais fortes Ele reitera que o que havia dito antes: ninguém tem a capacidade de vir a Ele a menos que o Pai o traga. A formulação é precisa: ninguém é capaz — ou dunatai, uma frase de capacidade. Como Paulo mais tarde afirma, o fato de o homem natural não ser capaz de entender as coisas espirituais é um princípio da esfera espiritual. Isso foi expresso por Jesus como a razão das pessoas serem incapazes de entender ou aceitar sua origem divina. A "atração" do Pai é absolutamente necessária. O termo helkuso é usado em outras partes do evangelho de João: quando Jesus atrai todos para Ele mesmo ao ser levantado da terra — João 12:32, embora aqui seja Jesus quem esteja atraindo — e no final do evangelho, quando Pedro "arrasta" a rede cheia de peixes para a praia. É impossível afirmar que a atração seja "universal" aqui, pois todos os que são atraídos são também ressuscitados: o Pai atrai e o Filho ressuscita aqueles que são atraídos. Isso é exatamente paralelo aos versículos 37-39 acima, só que em termos mais gritantes. Esta é a eleição de acordo com Efésios 1 e Romanos 8-9.

45 - Está escrito nos Profetas: ‘Todos serão ensinados por Deus’. Todos os que ouvem o Pai e dele aprendem vêm a mim. 46 - Ninguém viu o Pai, a não ser aquele que vem de Deus; somente ele viu ao Pai.

Comentário: Em defesa do ensino presente no verso 44, Jesus salienta que as próprias Escrituras haviam indicado isso: Isaías 54: 13 é a referência. Neste contexto Jesus está especificamente relacionando isso ao "ouvir" as palavras do Pai. "Ouvir" é mais uma daquelas palavras usadas por João de maneira dualista: alguns ouvem, mas não "ouvem". Outros ouvem e creem. Todos os que "ouvem" desta maneira — a partir do Pai — vão a Cristo. Eleição divina mais uma vez! Jesus afirma que os que ouvem o Pai e aprendem com ele, vem a Cristo, continuando a ideia principal dessa seção, i. e., de que o "Pai dá ao Filho". Mais uma vez, a resposta do homem é vir a Cristo. Este formato é visto novamente no capítulo 17, quando Jesus ora e diz: Eles — os discípulos — eram teus; tu os deste a mim, e eles têm guardado a tua palavra. A fórmula é a mesma aqui: 1 - o Pai possui os eleitos de forma soberana; 2 - Ele graciosamente dá os eleitos ao Filho; 3 - os eleitos respondem pela fé no Filho. A repetição desta verdade ao longo do livro é uma prova de sua importância para Jesus.

O verso 46 é paralelo a João 1:18: Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, o que existe eternamente no seio do Pai, o tornou conhecido. Jesus é a única avenida de conhecimento do Pai — Mateus 11:27, João 14:6. Isto tem grandes implicações no estudo de "outras" religiões, na rejeição do relativismo e no exclusivismo arraigado do Cristianismo.

47 - Asseguro-lhes que aquele que crê tem a vida eterna. 48 - Eu sou o pão da vida. 49 - Os seus antepassados comeram o maná no deserto, mas morreram. 50 - Todavia, aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer. 51 - Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre. Este pão é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo".


Comentário: Quem crê, diz Jesus, tem — tempo presente, ação contínua — a vida eterna. A vida eterna não está relacionada simplesmente à duração da vida, mas também à qualidade de vida — não é apenas algo futuro, mas presente também. Mas no que essa pessoa "crê"? Na Bíblia a fé sempre tem um objeto — nunca existe num vácuo. A fé não é uma entidade separada com existência própria. Parece que, no contexto, o principal objeto da fé é a pessoa de Jesus Cristo — o que é visto de várias maneiras. Primeiro, no versículo 46 Ele afirma ser "aquele que vem de Deus". No versículo 48 Ele fala que é o pão da vida. Ambas as declarações são afirmações sobre quem Jesus é — e, portanto, são objetos próprios da fé. Além disso, a maior parte da tradição textual lê "crê em mim" no verso 47. Aparentemente muitos escribas posteriores viram a fé como sendo aquela exercida no Senhor Jesus, e isso se encaixa muito bem no contexto.

Após a repetida afirmação de Ele ser o pão da vida, parece que estamos voltando à conversa original depois de tratarmos (com necessidade) daquilo que diz respeito à origem da fé verdadeira: o Pai. Jesus agora recomeça a busca do tópico original. Os pais do êxodo comeram o maná no deserto e morreram, mas o pão que desce do céu — Ele mesmo — é muito superior — Ele toma a comparação anterior entre o maná e o milagre da alimentação dos 5.000 — ao maná, pois esse era simplesmente um retrato daquilo que viria posteriormente em Cristo. Aquele que "come" deste pão nunca morrerá. O "comer" aqui é paralelo ao "crer" do verso 47: qualquer tentativa de tornar isso uma ação física perde todo o propósito da fala do Senhor. Aquele que crê tem a vida eterna: quem come do verdadeiro pão do céu nunca morrerá. Comer = acreditar.

Esta fé é uma questão pessoal, pois envolve "comer" o verdadeiro pão — que é o próprio Jesus, verso 51. Comer o verdadeiro pão significa ter vida eterna, e este pão, diz Jesus, é a Sua carne "que será dada pela vida do mundo". Não é a carne de Jesus, por si só, que é o objeto aqui. É a Sua carne como dada em sacrifício que traz a vida eterna. É o sacrifício que dá a vida e não a carne simplesmente. Ao doar a Sua vida, o Filho fornece vida ao mundo. O contexto novamente exige uma interpretação estrita do termo "mundo". João usa kosmos em muitas maneiras diferentes, mas aqui está bem claro quekosmos se refere apenas aqueles que são atraídos pelo Pai, dados pelo Pai ao Filho, e que respondem pela fé no Filho. Para ser consistente, é necessária uma ênfase contínua sobre este grupo.

52 - Então os judeus começaram a discutir exaltadamente entre si: "Como pode este homem nos oferecer a sua carne para comermos?”.

Comentário: Os judeus, ainda interpretando a conversa no plano físico, e recusando seguir a Jesus acerca da verdade espiritual subjacente a simbologia de Suas palavras, começam a discutir entre si acerca disso. É intrigante que frequentemente os homens brigam entre si por causa de teologia ao invés de deixarem a Palavra decidir a questão. Isso é verdade ainda hoje. As coisas mudam muito pouco ao longo do tempo. Os homens perguntam como Jesus pode dar a sua carne para eles comerem. É claro que Jesus não está dizendo que Ele irá fazer isso. Ele está falando de Seu sacrifício vindouro, do resultante perdão de pecados e da vida eterna para todos aqueles que estão unidos a Ele.

53 - Jesus lhes disse: "Eu lhes digo a verdade: Se vocês não comerem a carne do Filho do homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em si mesmos. 54 - Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.

Comentário: Jesus decide descer ao nível deles em uma tentativa de levá-los até o Seu. Ele prossegue com a metáfora, já firmemente estabelecida, de "comer = crer". O único caminho para a vida eterna é através da união com o Filho do Homem. Trata-se de uma relação vital de fé com Ele, simbolizada aqui por comer sua carne e beber seu sangue. Para completar a equação, Jesus coloca "comer a minha carne e beber o meu sangue" exatamente na mesma posição de ouvir a Sua palavra e crer naquele que enviou Jesus em João 5:24, ou de serem atraídos pelo Pai em 6:44, ou de olhar para o filho e crer em 6:40, ou simplesmente de acreditar em 6:47. O resultado é o mesmo em cada caso: a vida eterna — i. e., ser ressuscitado no último dia. Por isso, nós temos aqui uma indicação clara do uso da metáfora de comer sua carne e beber seu "sangue", em João 6. Graficamente teríamos:
Portanto, a interpretação sacramental desta passagem é deixada sem fundamento algum. Obviamente, Jesus não está falando de um "sacramento" da "Eucaristia" estabelecido anos mais tarde. Sua referência a Seu corpo e Seu sangue aqui é claramente paralela à crença no filho e a atração do Pai — os mesmos temas tratados acima. Para ser consistentes devemos rejeitar uma interpretação sacramental desta passagem.

55 - Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. 56 - Todo o que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. 57 - Da mesma forma como o Pai que vive me enviou e eu vivo por causa do Pai, assim aquele que se alimenta de mim viverá por minha causa.

Comentário: A razão pela qual se pode ter vida eterna ao comer a carne e beber o sangue do Filho é, simplesmente, que o Filho é a "verdadeira comida e a verdadeira bebida". Ele é a única fonte de sustento espiritual verdadeiro. É pela fé vital que se une a Cristo (João 15:4-8). Este é o lugar onde a vida pode ser encontrada. À parte de Cristo, o crente não pode fazer nada (15:5), pois Jesus é a fonte de toda a vida. A vida vem do Pai, que é dada a nós no Filho e é nossa somente nEle e por meio dEle. Sabendo que a vida eterna vem pela fé, o comer e beber são símbolos da dependência contínua na fé em Cristo. Aqui está a chave para a vida cristã: a dependência no Senhor Jesus Cristo em todas as coisas. Não há outro caminho para a vida eterna.

58 - Este é o pão que desceu do céu. Os antepassados de vocês comeram o maná e morreram, mas aquele que se alimenta deste pão viverá para sempre". 59 - Ele disse isso quando ensinava na sinagoga de Cafarnaum.

Comentário: Este discurso fantástico termina com uma advertência solene: os pais não comeram deste pão e morreram. Será que seus ouvintes irão compreender esse aviso? João irá nos dizer que dentre os homens são poucos os que irão ouvir e crer — e isso porque eles foram escolhidos por Deus. Os homens continuarão a buscar o natural — o pão físico — e a ignorar o verdadeiro pão espiritual oferecido em Jesus Cristo.

João enraíza a extremidade oposta deste sermão na história novamente, pois estas palavras foram pronunciadas na sinagoga de Cafarnaum, um lugar real, em uma época real. O mistério do Divino proferindo estas palavras na história: o maior de todos os mistérios.

60 - Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: "Dura é essa palavra. Quem consegue ouvi-la?" 61 - Sabendo em seu íntimo que os seus discípulos estavam se queixando do que ouviram, Jesus lhes disse: "Isso os escandaliza? 62 - Que acontecerá se vocês virem o Filho do homem subir para onde estava antes!

Comentário: É triste ver o uso de João do termo "discípulo" aqui: muitos tinham seguido a Jesus de uma forma que poderia ser chamado de "discipulado", mas que não era uma convicção sincera, pois não havia a "atração" ou a capacitação do Pai dentro deles. Eles ficaram "escandalizados" pela dureza das palavras de Jesus. Muitas pessoas ficam. Muitos odeiam o forte ensinamento da Bíblia. O relativismo é o veneno mortal do homem moderno. A pergunta, "Quem consegue ouvi-la?" entra na categoria de duplo uso da palavra "ouvir" no evangelho de João. Somente aqueles que "ouvem" do Pai e aprendem com Ele tem a vida eterna.

Jesus conhece os pensamentos desses discípulos superficiais e faz a eles uma simples pergunta: Se eles estão escandalizados com essas verdades básicas sobre Sua pessoa, o que eles irão fazer se o verem em Sua glória, a mesma glória que Ele compartilhou com o Pai antes de o mundo vir a existir (João 17:5)? Certamente isso seria ainda mais difícil de eles lidarem. Como Jesus disse a Nicodemos: Se eu falo com você das coisas terrenas e você não acredita, como é que você irá acreditar quando eu falar você das coisas celestiais?

63 - O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida. 64 - Contudo, há alguns de vocês que não creem". Pois Jesus sabia desde o princípio quais deles não criam e quem o iria trair.

Comentário: Pode haver de fato uma nota de exasperação na voz de Jesus aqui. Será que nem mesmo esses discípulos entendem a diferença entre espírito e carne? Porventura, elas não entenderam a óbvia dualidade aqui? É o Espírito que dá vida — a carne não produz nada que se aproveite. Estas palavras de Jesus são espírito e vida — mas ainda assim eles não entendem, porque não acreditam. Jesus sabia quem não acreditava assim como sabia quem iria traí-lo.

65 - E prosseguiu: "É por isso que eu lhes disse que ninguém pode vir a mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai". 66 - Daquela hora em diante, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo.

Comentário: O uso do tempo imperfeito aqui indica uma ação continuada — ou, neste caso, provavelmente uma ação iterativa — no passado. Jesus não disse isso a eles apenas uma vez, mas muitas vezes: "ninguém é capaz de vir a Mim, a não ser que isto lhe seja dado pelo Pai". Algumas traduções dizem "a menos que o Pai o capacite". Vir a Cristo não é o resultado de uma conversa persuasiva. Jesus foi o maior orador de todos os tempos, no entanto, muitos de seus discípulos "voltaram atrás e deixaram de segui-lo". Se o homem pudesse ser convencido desta forma, essa multidão certamente teria sido convencida. No entanto, o fator operativo estava faltando: a capacitação do Pai. A soteriologia de Jesus é, sem sombra de dúvidas, centrada em Deus. Pode-se explicitamente ver o fundamento da teologia de Paulo expresso bem aqui.

67 - Jesus perguntou aos Doze: "Vocês também não querem ir?” 68 - Simão Pedro lhe respondeu: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. 69 - Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus".

Comentário: Pode-se ver o Senhor Jesus se voltando a seu pequeno grupo de discípulos. Foi um dia bem difícil para eles. Eles viram o milagre da alimentação dos 5.000 e, logo depois, o Seu Mestre rejeitar a realeza oferecida. Eles viram Jesus andar sobre as águas. Mas depois disso viram as falas mais difíceis que Jesus tinha proferido até então. Este Messias é bem diferente do que o que eles estavam esperando! Nesse momento, a grande multidão estava saindo. Muitos estão indo embora. Tudo parece estar terminando em fracasso. E Jesus se volta para eles e pergunta: "Vocês também não querem ir?".

O impetuoso Simão Pedro responde por toda a equipe de discípulos: "Senhor, para quem iremos?" Quão valiosas essas palavras devem ter sido para o Senhor! Pedro confessa que estes homens compreendiam que Suas palavras eram referentes à vida eterna, e que eles têm acreditado e conhecido — ambos no presente perfeito — que Jesus é o Santo de Deus. Que conforto isso foi ao Seu coração. Os propósitos de Deus serão cumpridos. Estes homens são alguns dos dados ao Filho pelo Pai, e o Pai está mantendo sua promessa de ensiná-los. Ele tem feito isso, e eles respondem seguindo a Cristo, mesmo estando em minoria.

70 - Então Jesus respondeu: "Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo!" 71 - (Ele se referia a Judas, filho de Simão Iscariotes, que, embora fosse um dos Doze, mais tarde haveria de traí-lo.).

Comentário: Há amor na voz de Jesus quando Ele fala de que escolheu estes homens. Ainda assim, mesmo aqui, a terrível traição não é deixada fora de vista. Um desses homens não entende o amor de Jesus. Um desses homens é o "filho da perdição". Somente depois de Judas deixá-los na noite da traição foi que Jesus teve total liberdade de abrir Seu coração para estes homens a quem ele amava "completamente" (João 13:1).

***
Autor: Dr. James R. White
Fonte: Alpha & Omega Ministries 
Tradução/Adaptação: Erving Ximendes
Revisão: Bruno Matias

http://bereianos.blogspot.com.br/2016/09/comentario-de-joao-capitulo-6.html

QUAL A IMPORTÂNCIA DO JEJUM? - AUGUSTUS NICODEMUS


domingo, 26 de março de 2017

Crentes em um mundo de descrentes – Parte 2


A besta que surge da terra - Apocalipse 13.11-18

Nos versículos anteriores, vimos João descrevendo a Besta que surge do mar, referindo-se a uma Besta que surge do meio da humanidade. Observamos, que essa Besta que surge do mar se mostra como a perversão completa da humanidade, como se fosse o braço de Satanás. Vimos também que, a primeira Besta parece se referir ao quarto animal que Daniel vê (Dn 7.7), o qual é descrito como uma fusão de um leão, um urso e um leopardo (Ap 13.2). 

Com toda essa autoridade que a primeira Besta recebe, ela faz com que o povo a adore, mostrando ser incomparável a qualquer coisa (13.4), pronta para desmoralizar a Deus com suas blasfêmias e perseguição contra o povo de Deus (13.6,7), tendo autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação (13.7), confirmando a perdição da humanidade, pois não adorarão a Deus, mas, sim, a Besta (13.8). 

Se, a primeira Besta parece ser a imagem de Satanás, mostrando-se digna de adoração plagiando a Deus, a segunda Besta se coloca como aquele que leva a humanidade a adorar a primeira Besta, como sendo uma falsificação de Cristo. Encorajando a humanidade a buscar a salvação em sistemas humanos, ao invés de buscarem na graça de Deus, em Cristo. Por fim, a segunda Besta vai se levantar de forma inofensiva, mas, ao abrir a boca se revelará e levará muitos para o abismo. A visão que João tem da segunda Besta, a qual é descrita mais à frente como o falso profeta (16.13; 19.20), revela três elementos fundamentais: a sua pessoa (13.11); o seu poder (13.12-14); e o seu programa (13.15-18). 

A sua pessoa – 13.11

Vi ainda outra besta emergir da terra; possuía dois chifres...”

Se, para entender o início do capítulo 13, precisamos olhar para Daniel 7, de igual modo, para compreendermos essa última parte, precisamos olhar para Daniel 8. Essa Besta com dois chifres mostra seu poder, mas não igual ao da primeira Besta, que tinha dez chifres.

Ela, a segunda Besta, mostra seu governo maligno, como uma paródia das duas testemunhas, que são os dois candelabros – a igreja. Ou seja, enquanto a igreja proclama que só há salvação em Cristo, a segunda Besta proclamará que a salvação estará na primeira Besta, a qual deve ser digna de adoração.

Ao invés de surgir do mar, essa besta surge da terra como se fosse uma oposição ao céu, ao trono de Deus. Sua mensagem é eivada de mundanismo, a qual massageia o ego do homem, levando-os a adorarem o sistema humano.

“...parecendo dragão, mas falava como dragão.” 

Ou seja, é um lobo com pele de cordeiro. Parece ser inofensivo, mas é pura destruição. Os falsos profetas possuem esse estilo. Falam de maneira sorrateira, de forma bonita e agradável. No entanto, sua mensagem se mostra contraria à Palavra de Deus, pois, quem o está usando é Satanás.

E aqueles que derem crédito às suas mentiras, entrarão em terrível julgamento com Deus (Ap 14.9-11). 

O seu poder – 13.12-14

Exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença. Faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal foi curada” (v.12).

A segunda besta não é uma contradição da primeira, mas, um complemento. Ela faz uma propaganda da primeira besta, lembrando que a ferida mortal da primeira Besta foi curada. Porém, a segunda Besta não quer plagiar a Cristo ou ao Espírito Santo, somente. Pois, percebam, ela quer agir igual a Cristo, sendo a mediadora entre a humanidade e a primeira Besta; e quer agir como o Espirito Santo, convencendo o mundo de que a primeira Besta deve ser adorada.

Também opera grandes sinais, de maneira que até fogo do céu faz descer à terra, diante dos homens. Seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida à espada, sobreviveu” (vv. 13-14)

As ações da Besta parecem ser ecos irônicos, primeiro de Moisés com grandes sinais (como a igreja também é descrita em Ap 11), e, depois, com Elias, ao dizer que fazia descer fogo do céu como uma demonstração profética, mas aqui será um falso profeta. 

Infelizmente, o povo é levado a acreditar em todo e qualquer tipo de sinais e maravilhas. E, esses sinais, serão o meio pelo qual a segunda Besta seduzirá o povo e os desafiará para que façam uma imagem em honra para a Besta, pois tinha sido ferida e foi curada. 

No entanto, precisamos entender uma coisa. Os milagres que a Bíblia relata que os apóstolos fizeram, bem como Moisés/Josué e Elias/Eliseu, foram para confirmar o que estava sendo transmitido. Quando Moisés/Josué fizeram milagres extraordinários, foi para confirmar a validade daquilo que eles estavam trazendo ao povo: a Lei. Da mesma forma, Elias/Eliseu, os quais representam a classe dos profetas. E assim, Cristo e os apóstolos. Eles estavam trazendo as boas novas de salvação da Nova Aliança. 

Contudo, alguém dirá: “mas a besta fará milagres para validar a sua mensagem também, e agora?”. Nós cremos que Deus faz milagres, pois, Ele controla todas as coisas. No entanto, se cremos na Escritura, saberemos que não haverá nenhuma nova revelação e muito menos alguém que tome o lugar de Cristo.

“...e lhe foi dado comunicar fôlego à imagem da Besta, para que não só a imagem falasse, como ainda fizesse morrer quantos não adorassem a imagem da besta.” (v.15)

Mas, a segunda besta é audaciosa. Quando olhamos para algumas advertências do Antigo Testamento, vemos Deus mostrando que os ídolos nada são, pois, têm boca, mas não falam. Têm pés, mas não andam e som algum saí de sua garganta (cf. Sl 115.1-8). No entanto, a imagem dessa besta terá fôlego para que possa se comunicar. Deus permitirá que isso aconteça para mostrar como estará a humanidade antes da volta do Seu Filho, pois, o próprio Salmo 115.8, nos diz que todos quantos adoram uma imagem tornam-se semelhantes a ela.

Seu programa – 13.16-18

A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhe seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.”  (vv.16-18)

De modo que, a humanidade está, e estará, ainda mais cega nesses últimos dias, a imagem da besta que terá fôlego para que possa se comunicar com o povo, também matará aqueles que não a adorarem. No entanto, todos que lhe prestarem culto receberão a marca da besta. 

Diversas interpretações foram dadas ao que seria essa marca. Alguns cristãos, fazendo a somatória dos valores numéricos das letras, entendiam que o número 666 simbolizava Nero, Napoleão, Hitler, entre outros. Há algumas décadas, afirmava-se que essa marca seria o código de barra, pois, havia um valor numérico escondido e sem aquele código ninguém compraria nada. Outros, anos depois, entendiam que a marca da besta era o cartão de crédito, pois, com a mão você manuseava o cartão e na mente você gravava a senha. E, por fim, hoje em dia é dito que a marca da besta é um microchip, implantado na mão, o qual irá conter todos os nossos dados, e com esse chip implantado poderemos ou não, comprar ou vender algo. 

No entanto, essas interpretações não possuem fundamentação bíblica. Como mostra-nos o capítulo, a Besta quer falsificar, plagiar a Deus. Ou seja, ela copia a Deus, mas o copia de forma distorcida. E a Marca não é diferente. Na Lei, lemos que Deus a atará, a qual servirá como um sinal, nas mãos e entre os olhos. Ou seja, tudo aquilo que eu faço e tudo aquilo que eu penso, deve refletir a Lei de Deus. Assim sendo, a marca de Cristo é viver de conformidade com a Lei de Deus. Não obstante, a marca da besta é contrária a marca de Deus. Se a marca de Deus é viver em santidade, a marca da besta é viver em impiedade. Por isso que é o número 666. Enquanto Deus faz tudo perfeito, e essa perfeição é descrita pelo número 7, o número da besta é 6 porque é imperfeito, logo, é número de homem e não do Deus perfeito. 

Portanto, o número da Besta não se refere ao anticristo em si, mas creio que, na verdade, se refira ao seu programa (de como ele conduzirá as coisas). Ou seja, como diz o texto - não poderemos comprar ou vender sem a marca -, o povo de Deus será excluído do convívio da sociedade. 

Conclusão

Antes da volta de Cristo, a igreja não somente passará por uma perseguição física, como também por uma perseguição ideológica, sendo tentada, por todos os lados, a negar a Cristo.

Aplicação

Não devemos temer qualquer tecnologia que surja, conjecturando ser a marca da besta. A marca da besta é oposta a marca de Deus. Se nós temos o selo do Espirito, garantindo que pertencemos a Deus, estaremos para sempre com Cristo. A marca da besta garante que tal pessoa pertence ao Diabo. A marca de Deus é demonstrada por nossa vida de total confiança em Cristo e na sua obra. Aqueles que possuem a marca da besta confiarão no Diabo e em suas obras.

Quem nossas obras têm refletido? Em quem mais colocamos a nossa confiança? 

***
Autor: Denis Monteiro
Revisão: Malvina Oliveira
Fonte: Bereianos

http://bereianos.blogspot.com.br/2016/09/crentes-em-um-mundo-de-descrentes-parte.html

SERÁ QUE SUAS PALAVRAS TEM TANTO PODER ASSIM? - AUGUSTUS NICODEMUS


sábado, 25 de março de 2017

Crentes em um mundo de descrentes – Parte 1


A Besta que surge do mar - Apocalipse 13.1-10

Como ser crente em um mundo de descrentes? Como viver piedosamente enquanto tudo em nossa volta tenta fazer com que neguemos o nome de Cristo? Viver em santidade neste mundo é um grande desafio para o salvo. Alguns, por não entenderem quem é Deus, amenizam o tema “santidade” diminuindo a nossa exigência, enquanto outros, abrandam o caráter de Deus, colocando-O como um ser amoroso no sentido de que, Ele ignora nossos erros, ou seja, faz vista grossa.

Porém, não é essa a visão bíblica, tampouco a do livro de Apocalipse. Apocalipse exige que sejamos santos em meio às perseguições, para que testemunhemos de Cristo até que Ele volte. No entanto, o Dragão, a Serpente enganadora, Satanás, continuará a perseguir, tentando inutilizar e difamar a igreja. E, como mostra este capítulo, ele conseguirá vencer a igreja, mas será tarde. Pois, a Igreja terá cumprido com seu oficio, e quando ele conseguir vencê-la,  é porque sua derrota final está próxima.

Contexto

É isso que João quer mostrar neste capítulo. No capítulo 12, ele nos diz que o Dragão tenta perseguir a Cristo, mas perde e é expulso do céu. Na terra, ele tenta perseguir a Igreja, mas, não consegue, pois, Deus provê sempre um escape para seu povo. 

Agora, no capítulo 13, o texto mostra que não será o Dragão quem perseguirá a igreja diretamente, mas haverá um agente que fará o serviço. 

Vimos também que, para interpretar o livro de Apocalipse, precisamos olhar para o Antigo Testamento. Por exemplo, o capítulo 12 mostra sua similaridade com Gênesis 3, com a Serpente que persegue o Filho da mulher, sendo vencida e, persegue também os descendentes da mulher sem nenhum sucesso. Já o capítulo 13, indica-nos uma repetição de Daniel 7.1-8, onde lemos sobre três animais poderosos, cada um com sua descrição, e mostra-nos também um quarto animal, o qual Daniel não identifica, mas, era espantoso, com dez chifres e de sua boca saiam insolências (a mesma referência de Apocalipse 13).  Portanto, podemos entender esses dez versículos de Apocalipse 13 da seguinte forma: A descrição da Besta (13.1-4); A atuação da Besta (13.5-8) e A advertência para a Igreja (13.9,10). 

A descrição da Besta – 13.1-4

Se, no capítulo 12 o Dragão persegue a Igreja e não tem êxito, no capítulo 13, o Dragão comissiona alguém para que persiga a igreja. Esse ser que está para perseguir a Igreja é descrito como igual ao Dragão do capítulo 12. Ambos possuem “dez chifres” (que simbolizam poder), e “sete diademas” (12.3; 13.2). A besta é tão impressionante quanto o Dragão. Se prestarmos cuidadosa atenção, João retrata a Besta como se fosse a imagem do Dragão, um tipo de "plágio" de Deus, no tocante a criação do homem à sua imagem. Enquanto o homem foi criado para refletir o caráter de Deus, a Besta, de igual modo, foi levantada para que refletisse a corrupção do Dragão. 

A imitação que a Besta quer fazer de Cristo não para por aí. Ela é descrita como tendo dez coroas sobre os chifres, Cristo é descrito como tendo muitas coroas (19.12). A Besta tem “nomes de blasfêmias”, Cristo tem nomes dignos (19.12,13,16). A Besta experimenta uma falsa ressurreição. O texto mostra que, em uma de suas cabeças (v.3), ela tinha uma ferida de morte que, no entanto, foi curada. Diferente de Cristo, que, provou a morte e ressuscitou dentre os mortos. E, assim como Cristo é adorado (5.8-10), a Beste é adorada (v.4), copiando até o cântico proferido por Moisés após passarem o Mar Vermelho, fugindo das garras de Faraó (Ap 13.4; cf. Êx 15.11).

João, mostra-nos aqui, que os quatros animais que Daniel vê resumem-se em apenas um. No livro de Daniel, esses três animais são compreendidos como representando os três reinos. O Leão com asas pode ser a Babilônia, pois as imagens antigas das cidades mostram um Leão com asas.  O Urso pode ser entendido como o império Medo-Persa e o Leopardo como o império Grego. E o quarto animal, a que império se refere?

Creio, que o animal que João vê, seja o quarto animal que Daniel viu. Ambos surgem do mar, têm dez chifres e sete diademas (coroas). Contudo, aqui não há a possibilidade de interpretar literalmente.

Alguns entendem que, se os outros animais representam os reinos antes de Cristo, esse animal que João vê representa o reino atual da época em que João escreve, o Romano. E, desse modo, entendiam que “mar” fizesse uma referência às navegações Romanas. Entretanto, não entendo que seja só o império Romano, mas, todos os Governos que vieram e virão, que negam a Cristo e limitam a atuação da Igreja. E aqui podemos entender o “mar” como uma referência às pessoas. Basta olharmos para a época de Daniel. Eles foram forçados a adorarem a imagem do imperador, por se recusarem veementemente foram lançados na fornalha, e Daniel foi preso porque estava orando. Percebam, a oposição surge do meio do povo tanto como um sistema, como descrito aqui, quanto como um falso profeta, descrito em Ap 13.11-18.

Assim será antes da volta de Cristo. Satanás fará oposição à igreja como fez a Daniel, proibindo que Deus seja adorado, mas, que a Besta seja adorada no lugar de Deus e aqueles que não a adorarem serão mortos. 

Porém, alguém poderá dizer: “Eu nunca me prostrarei diante de outra pessoa ou alguma imagem, substituindo a Jesus”. Ocorre que, existe outro meio pelo qual Satanás poderá atuar e, está atuando, para que substituamos a glória de Deus. Nós somos tentados a olhar para o Estado como um Estado messiânico, um Estado libertador dos males da sociedade. Temos a tendência de colocarmos a nossa confiança em políticos e ideologias que resolverão o problema da economia, da saúde e até mesmo espirituais. Uns, lutam para que o Estado governe tudo e tome até decisões mínimas para o povo, como por exemplo, usar uma lâmpada. Enquanto outros, lutam tanto por uma democracia, que, para tudo o que fazem necessitam, de igual modo, consultá-la para certificar-se se é correto ou não.

Portanto, essa imagem de idolatria é muito sutil, e Satanás intenta falsificar a Deus. Uma das formas pelas quais Satanás quer falsificar a Deus, é por meio de sua atuação. 

A atuação da Besta - 13.5-8

Pela quarta vez, João repete que a Besta recebeu algo, e ela o recebe por meio do Dragão. O que ela recebe, ela usa contra Deus e contra o povo de Deus. Contra Deus ela difama, blasfema. Se, anteriormente ela pretendia imitar a Deus, aqui, ela quer desmoralizar a Deus e o Seu povo que irá morar no céu. 

No entanto, o mesmo Deus que dá folego a todos, também restringe o poder da Besta durante esses 42 meses. Nesta última semana, que são os mil duzentos e sessenta dias, a Besta perseguirá a igreja e vencerá tendo autoridade sobre cada espaço desta terra. 

Não obstante, quando a Besta conseguir vencer a igreja, é porque a Igreja conseguiu cumprir com seu propósito de anunciar o Evangelho da salvação a todos os povos, e fazer com que os eleitos sejam atraídos por Deus. 

Mas, infelizmente, aqueles que não estavam no Livro da Vida desde a fundação do mundo, crerão na mentira e se unirão à Besta para pelejar contra Cristo e sua Igreja, como diz Paulo: o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus (2Ts 2.4). No entanto, esse engano não será no futuro somente, mas, já começou. Paulo disse que o mistério da iniquidade já opera (2Ts 2.7) e que, “quando ele vier aparecerá segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios da mentira” (2Ts 2.9). Se o poder que a Besta recebe vem do Dragão, os prodígios mentirosos que ela faz, é Deus quem permite, para que aqueles que negaram a verdade creiam na mentira (2Ts 2.11). 

Mesmo em meio a perseguição, Deus nunca deixa seu povo desamparado, sem resposta, pois Deus adverte a sua igreja. 

A advertência para a Igreja – Ap 13.9,10

Deus usa a mesma frase utilizada no final de cada carta às sete igrejas: “quem tem ouvidos, ouça”, asseverando que devemos estar atentos ao que fora dito antes e no que está porvir. João mostra à Igreja que o sofrimento é certo, mas, que ela não deve temer, antes, deve colocar toda a sua confiança no Deus que vingará seu povo. Enquanto isso, a Igreja deve mostrar-se firme diante das perseguições.

Conclusão 

Viver neste mundo mal sempre será um desafio para o Cristão, para que não se corrompa com ele. E será este mesmo mundo que o Diabo usará para perseguir o povo de Deus. No entanto, Deus deixará o seu povo aqui para que testemunhe de Cristo até a sua volta.

Aplicação 

Se Deus adverte a igreja para ouvir atentamente a Sua mensagem sobre a maldade que há no mundo, a qual pode fazer com que me afaste de Deus, como eu posso ter certeza da minha salvação ante a perseguição? Desde o capítulo 12, João quer mostrar que a nossa vitória só é certa porque Cristo venceu. E essa mensagem vem desde o Antigo Testamento. O Salmo 15 questiona: “quem habitará no seu tabernáculo?”  e “quem há de morar no teu santo monte?”, a resposta é clara: Aquele que vive em integridade. Contudo, sabemos que diariamente pecamos, e, se pecamos diariamente, como podemos ser justos para sermos recompensados? O Salmos 24 nos faz a mesma pergunta do Salmo 15, afirmando-nos que alguém deverá ser integro para habitar com Deus. A cena muda e mostra que houve um homem que foi integro em toda sua vida, que morreu e ressuscitou para que possamos ter a garantia de nossa salvação. Portanto, mesmo que a igreja seja vencida fisicamente, Satanás nunca derrotará a igreja espiritualmente, ele não pode mais nos acusar, porque é Deus quem nos justifica.

No entanto, como mostrei acima, o versículo 10a – se alguém leva para cativeiro, para cativeiro vai – é uma paráfrase de Jeremias 15. Se a perseguição contra o cristão serve como um meio de perseverança, a perseguição para aqueles que estão na igreja, porém, não são salvos, servirá para que se manifestem como aqueles que nunca pertenceram ao corpo de Cristo.

Somente unidos com Cristo podemos desfrutar de sua vitória e de seus benefícios. Sem Cristo, o destino é perdição eterna. 
***
Autor: Denis Monteiro
Revisão: Malvina Oliveira
Fonte: Bereianos

http://bereianos.blogspot.com.br/2016/08/crentes-em-um-mundo-de-descrentes-parte.html

DEVO SEGUIR A JESUS OU A BÍBLIA? - AUGUSTUS NICODEMUS


domingo, 19 de março de 2017

DEUS PREDESTINOU PARA MÁS OBRAS? - AUGUSTUS NICODEMUS


Cristianismo e Aborto


A demanda por aborto não é exclusividade de um único país, mas é comum hoje a todo o mundo ocidental. De um lado, certamente, havemos de reconhecer – e é muito importante que se entenda – que políticas a favor da legalização do aborto têm sido cada vez mais impostas verticalmente, a partir de governantes que seguem agendas políticas conscientemente dentro do processo de subversão cultural do Ocidente; de outro lado, devemos reconhecer que tal demanda é apenas a consequência de um longo processo de entropia cultural do mundo outrora cristão. Falha quem resume o problema apenas ao primeiro aspecto, julgando que tudo não passa apenas de uma militância revolucionária em favor de modelos socialistas; nesse sentido, a igreja muito comumente falha ao negar que exista tal militância, entendendo o problema como exclusivamente cultural. Mas é fato que a agenda revolucionária tem o único propósito de forçar, de impulsionar os resultados desse descarrilamento intelectual e espiritual do Ocidente. Os revolucionários, de certa forma, querem acelerar o processo que muitos deles creem ser a consumação dos tempos do humanismo. A demanda por aborto não surgiu por coincidência: ela é fruto de uma cosmovisão. 

DEUS ESTÁ MORTO

Francis Schaeffer entendeu que a cosmovisão naturalista-materialista é incapaz de prover dignidade ao homem, ou mesmo de garantir o sonho iluminista de “direitos humanos”. Se Deus não existe, se o universo é movido por forças mecânicas impessoais, segue-se que não existe espaço para o indivíduo humano. O abandono de Deus significa também a desumanização do homem. Hoje, o homem não é mais Imago Dei; antes, ele é visto como um animal, um macaco com cérebro avantajado, ou, como no caso das teorias comportamentalistas dos psicanalistas, uma espécie de “máquina biológica”. A definição de vida e de humano perde-se nessa falta de padrão absoluto, e, por essa razão, vários abortistas desumanizam os bebês em gestação, tratando-os como “amontoados de células”. Cortá-los em pedaços com tesouras cirúrgicas acaba sendo como cortar uma laranja. 

Se há um grande evento que explique a demanda por aborto, é a “morte de Deus” percebida por Nietzsche. Ao contrário do que muitos conservadores costumam pensar, Nietzsche não “matou Deus”. Nietzsche jamais acharia que Deus realmente pode morrer, porque Deus não é físico ou mortal. O filósofo alemão simplesmente percebeu que Deus já estava “morto” para o homem de seu tempo: Deus, mesmo que exista, tornou-se irrelevante para o homem moderno. Isso necessariamente afeta todas as áreas da vida humana e o modo pelo qual o homem se relaciona com o próximo e com a própria realidade. 

Se o homem não presta contas a Deus e se nada no mundo funciona segundo um propósito por ele criado, é necessário reinterpretar todas as relações humanas.  Na melhor das hipóteses, o casamento em um mundo onde Deus não existe acaba tendo uma função “social” de educar crianças para a vida em “sociedade” – algo que o marxismo há muito deseja corrigir com a possibilidade da tutela das crianças pelo próprio Estado em creches, como hoje acontece na Coréia do Norte. Mas à medida em que a religião se tornou cada vez mais irreal para o homem moderno, o casamento deixou de ser um pacto entre um homem e uma mulher que tornar-se-iam uma só carne diante do Deus Triúno, passando a ser um contrato: “você me dá prazer e felicidade e eu te dou o mesmo”. Se você não está feliz no casamento, divorcie-se. Este é o conselho oferecido pela nossa cultura. O casamento torna-se um objeto de consumo. Necessariamente, o mesmo efeito estende-se a todas as relações sociais, incluindo a maternidade. Num mundo extasiado pelo entretenimento e pela busca do prazer momentâneo e nauseante, o casamento e a maternidade tornam-se pouco atrativos. Na verdade, tornam-se mesmo empecilhos indesejáveis para as fracas mentes jovens. 

Isso envolve também um outro efeito da morte de Deus: a insegurança sobre o futuro, a ausência de Providência divina. É por isso que alguns abortistas argumentam que um filho em determinado momento da vida pode atrapalhar os planos futuros, as realizações profissionais, etc. Isso significa, em parte, negar a Providência de Deus. Devemos nos perguntar – e incluímo-nos nesta pergunta também – se essa mesma mentalidade ateísta não está hoje presente em parte da cultura contraceptiva de muitas famílias cristãs. Será que essa cultura que demanda por aborto, por uma vida livre de responsabilidades e esforço, tem algum reflexo na igreja de Cristo?

Semelhantemente, sem Deus, o Estado toma o papel de predestinador da vida humana. Se Deus não é predestinador, o Estado assume a função divina de conduzir a humanidade a um propósito preordenado. O controle populacional torna-se necessário e desejável. Se o mundo está superpopuloso, como advoga a teoria malthusiana, liberemos o aborto em nome de “um mundo melhor”. Sabe-se que a Planned Parenthood, recentemente envolvida num escândalo de venda de órgãos de bebês abortados nos EUA, foi criada por uma nazista cujo objetivo era controlar o crescimento populacional de negros nos EUA. Se Deus está morto, o homem é livre para ser o predestinador de si mesmo. 

LA LIBERTÉ

A Escritura testemunha que o desejo de ser livres de Deus tenta a humanidade há tempos: mais precisamente, desde o jardim do Éden. Em Gênesis 3, a serpente diz a Eva que Deus lhe proibira de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal porque “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus” (Gn 3:5). Esse é o conceito de liberdade da serpente: liberdade de Deus, para ser deuses para si mesmos. Eva e Adão desejaram ser deuses para si mesmos, descobrindo, sem Deus, o que era o bem e o mal. Mas a princípio, Eva precisou apartar-se da pressuposição de que o universo fora criado por Deus para uma possibilidade aprioristicamente antinomista: “é bom que eu seja livre para conhecer por mim mesma”. Eva lançou a determinação de Deus sobre a malignidade daquele ato para a esfera da mera “opinião”, crendo que os conceitos de bem e mal fossem ideias “platônicas” (anacronicamente falando) autoexistentes e independentes dEle. O desejo de ser livres de Deus foi herdado por toda a humanidade na depravação total que nos aborrece. Deus, sob esse ponto de vista, é o vilão, o tirano que tira do homem sua liberdade de autodeterminação. E a “morte de Deus”, no Ocidente, nada mais é do que a manifestação do pecado original em nossos tempos. 

Nessa tendência, a Nova Esquerda e alguns libertários estão unidos (nem todos os libertários são favoráveis ao aborto). Segundo o argumento de Murray Rothbard, em The Ethics of Liberty [A Ética da Liberdade], o feto deve ser visto

(1) como um invasor que a mulher tem o direito ou não de permitir a estadia dentro de si; (2) como incapaz de ser o agente de um "contrato" (sic), de forma que o aborto não seria uma quebra de contrato; (3) razão pela qual exigir que a gestação seja mantida significaria prender a mulher num contrato de escravidão; (4) e que o feto, mesmo que seja considerado humano, não pode ser mantido exceto pelo consentimento da mãe, porque nenhum ser humano tem o direito de ser "parasita" [sim, ele usa este termo] de outro, i.e., se um ser humano adulto não tem esse direito, então o bebê em gestação também não tem.

Rothbard, citando a professora Judith Thomson, chega a questionar a doutrina do "direito à vida", porque este pressuporia a obrigação de outrem prover o sustento para a vida de um indivíduo – virtualmente, todos –, e que ninguém tem essa obrigação absurda.

Esse famoso libertário, a despeito de suas opiniões corretas e úteis no campo econômico, dá ao indivíduo o tipo de liberdade que a serpente ofereceu a Eva. Por isso, com propriedade, afirmamos que sua proposta é diabólica. As relações pessoais são vistas em termos de "contratos", não de Pacto com Deus, imanentizando a soberania e oferecendo ao indivíduo uma experiência atomística. A soberania humana sobre o próprio corpo na verdade é secundária; e trata-se de um equívoco dos próprios conservadores a retirada das esferas da vida do Estado para concedê-las à propriedade privada, pois, agindo assim, continuamos dentro do espectro iluminista, já que as esferas – todas elas – pertencem antes a Deus. A relação familiar, verdadeiro dom divino, é um símbolo da própria Trindade e não é vista dentro do escopo do direito de propriedade privada, mas dentro de um propósito criacional do qual o homem, degenerado por sua natureza totalmente depravada, quer sempre se desfazer. 

Com relação à liberdade, é preciso ter em mente que as pessoas nem sempre se referem à mesma coisa quando se valem do termo. Como R. J. Rushdoony ensina emRoots of Reconstruction [Raízes da Reconstrução], o conceito de liberdade no Ocidente sofreu severas mudanças desde a Idade Média. Para Anselmo, a liberdade do homem consistia em liberdade para praticar o bem. O conceito cristão de liberdade na esfera das relações públicas era basicamente a de liberdade religiosa contra o Estado, resultado de um longo processo histórico de conflitos entre a igreja, príncipes e imperadores. Com o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Francesa, chegando até a Revolução Russa, cada vez mais a liberdade transformou-se numa liberdade contra Deus. Primeiramente, o homem deveria conformar-se com a natureza; e, por sua vez, a moral cristã, sendo “sobrenatural”, tornou-se logo um elemento estranho indigno de influenciar as decisões dos indivíduos e sociedades. Sem reconhecer a doutrina do pecado original, todos os desejos humanos começaram a ser vistos como “naturais”. Um dos primeiros a perceber isso, segundo Rushdoony, foi o Marquês de Sade. Depois dele, Max Stirner zombaria dos homens de seu tempo que, rejeitando a existência de Deus, ainda apegavam-se a qualquer ideia de lei moral. Stirner acusava-os de serem “cristãos enrustidos”. A única consequência lógica para a morte de Deus, então, seria a anarquia. Nietzsche percebeu o mesmo e sonhou com o seu super-homem (Übermensch), além do bem e do mal. Para Nietzsche, o cristianismo era o verdadeiro niilismo, que negava ao homem o desejo de “viver”, segundo sua vontade de poder. Novamente, entendam, Nietzsche inicia sua jornada com o desejo de “vida”. Para o cristianismo, a ideia de pecado aprisionava o homem, visto que a felicidade neste mundo configurar-se-ia como uma impossibilidade, devendo, antes, ser esperada somente no próximo mundo. Os reflexos de sua obra estão presentes em todas as artes no sécuo XX: na literatura, na pintura, no cinema e, como diz Rookmaaker, até mesmo no jazz e em seus descendentes musicais. Esse impulso por uma vida acima do bem e do mal enraizou-se na mentalidade ocidental.

L’ÉGALITÉ

A modernidade, como já temos visto, segue a lógica da emancipação. Albert Camus, emO Homem Revoltado, entende que os revolucionários franceses mataram o Rei Luís XVI como uma forma de matar o próprio Deus, porque a autoridade do rei provinha – segundo as doutrinas esposadas – de um direito divino. Luís XVI não era um tirano caricato, mas, nas palavras do mesmo Camus, um homem fraco e bondoso, que tinha o livro Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, como leitura pessoal. O absurdista francês escreveu que “o julgamento do rei é o ponto de partida de nossa história contemporânea. Ele simboliza a dessacralização dessa história e a desencarnação do Deus cristão”. E como cristãos, sabemos que as autoridades instituídas, todas elas, são levantadas por Deus. Matar Deus significa iniciar também uma crise de autoridade. Na perspectiva dos revolucionários, o rei – como o Deus cristão com sua lei sobrenatural – era um usurpador do poder do povo.

A democracia liberal surge, portanto, envolta nessa grande crise de autoridade, na qual Deus foi “morto”. Deus foi sacrificado para que “o povo” ficasse com sua divindade. O igualitarismo radical requer o fim de toda a autoridade, e aquela é a única justiça que o homem sem Deus idealizou. Novamente, voltemos nossos olhos para Adão e Eva no Éden: seu desejo era igualdade com Deus. Adão e Eva precisaram negar a autoridade de Deus em favor de seu desejo por divindade.

Depois da muito justa abolição da escravidão – não pouco impulsionada por pregadores como John Wesley e o próprio Charles Spurgeon, já que ela ia de encontro à lei de Deus, e, afinal, concretizada pelo cristão William Wilberforce, na Inglaterra  –, os emancipadores seguiram seu curso contra todas as relações sociais que funcionam com qualquer autoridade: a mulher deve ser emancipada do homem; o jovem, do ancião; o trabalhador, do empregador; e assim por diante. Se não há igualdade absoluta, não há liberdade verdadeira, mas opressão. 

Mas a igualdade absoluta, em si mesma, não passa de uma abstração. O cristianismo, que influenciou o liberalismo original, estabelece, como percebeu Abraham Kuyper, uma igualdade diante de Deus e o regime das leis. Trata-se apenas de um aspecto. No Antigo Testamento, os homens tinham uma quantidade maior de penalidades do que as mulheres em virtude de sua responsabilidade maior. As Escrituras reconhecem a diferença entre os sexos, embora de forma bem diferente do chauvinismo iluminista. A tentativa de igualar homens e mulheres em todos os aspectos acaba tornando-se uma luta contra a própria realidade. E, nesse ponto, a luta revolucionária assume um caráter mais explicitamente herético, deixando à mostra seu ancestral: o gnosticismo.

GNOSTICISMO

Um aspecto que devemos enfatizar na questão do aborto é sua proximidade cada vez maior do gnosticismo. Uma das diferenças entre homens e mulheres está justamente na maternidade. A maternidade impede uma “igualdade radical”: mães têm licença maternidade, acabam tendo que sacrificar tarefas ou estudos para cuidar dos bebês nos primeiros meses ou anos. A busca por “igualdade”, portanto, passa por uma negação da própria biologia, das relações familiares e dos desejos maternais inatos, vistos como inferiores, escravizadores e malignos. Para muitas mulheres, o aborto é uma questão de liberdade: sobre o próprio corpo; sobre o mundo da necessidade (da obrigação maternal) para com o filho e a consequente necessidade do casamento. No fim das contas, a liberdade exigida pelas feministas torna-se uma luta contra a realidade criada por Deus: a realidade é má e a biologia é um fator desfavorável à mulher, como se ambas (a realidade e a biologia) tivessem sido criadas por um deus maligno. As semelhanças dessa mentalidade com o gnosticismo original não são poucas, tampouco são coincidências. Necessariamente, o movimento feminista se lança numa luta por androginia, a fim de retirar das mulheres a identidade materna; e os gnósticos, por seu turno, como vê-se no Evangelho de Tomé, defendiam a androginia como um ideal do asceta e criam num deus andrógino. De semelhante modo, os cátaros, que tinham um forte viés gnóstico, eram avessos à procriação. Portanto, os cristãos estão lidando com um problema, sobretudo, de natureza espiritual.

A associação entre feminismo e gnosticismo está muito além do que a da mera aparência. Os teólogos liberais têm confessadamente buscado fontes gnósticas em sua reinvenção do cristianismo. A teologia feminista por trás da ordenação de mulheres tem colocado os apócrifos como fonte de autoridade e retalhado o Antigo Testamento, também a exemplo dos primeiros gnósticos. 

A luta pela legalização do aborto e por liberdade absoluta nada mais é do que o efeito do pecado original nos nossos tempos. Essa luta é sobretudo uma luta contra Deus e sua Lei. Uma revolta primordial que diz respeito ao que há de mais básico no coração.

CRISTIANISMO E O ABORTO

R. J. Rushdoony, em O Ateísmo da Igreja Primitiva, descreve brevemente sobre a luta dos primeiros cristãos contra o aborto praticado no Império Romano como uma de suas grandes batalhas. “Os cristãos”, diz ele, “criaram o hábito de ir imediatamente aos locais em que os bebês eram abandonados – para serem devorados por cães ferozes, como disse Tertuliano – para recolherem esses recém-nascidos e distribuí-los entre as famílias”. O teólogo afirma ainda que a vitória contra o aborto foi a primeira grande vitória do cristianismo. O aborto era a segunda questão mais importante da igreja, abaixo somente da disputa entre a soberania de Cristo e a soberania do imperador.

Precisamos ter em mente que a legislação que pune o aborto no Ocidente é única na história da humanidade. Rushdoony, em suas aulas, reiterava como todos os povos, embora tivessem algumas proibições à prática, não opunham-se a elas em princípio. Quando os inimigos de Cristo forçam a aprovação de leis pró-aborto, eles estão atacando uma bandeira tipicamente cristã.

AGENDA REVOLUCIONÁRIA

João Calvino disse que o verdadeiro pastor “tem duas vozes: uma para chamar as ovelhas e outra para espantar os lobos devoradores.” O cristão não pode fingir que essas ideias têm se espalhado por todo o Ocidente por acidente. Há uma estrutura comprometida com esse processo. O ministro do Supremo Tribunal Luís Roberto Barroso tem ligações com George Soros, recentemente denunciado por todo o mundo por financiar grupos de esquerda e influenciar políticas de seu interesse. A educação pública tem sido, há muito tempo, a maior arma na difusão da religião do homem caído. Paralelamente, as artes têm servido como ponta de lança, ocupando uma esfera onde os cristãos não têm influência, defeito denunciado por Schaeffer e Rookmaaker. Cientistas e médicos como o dr. Drauzio Varela, que por vezes parece mais preocupado em envolver-se com questões éticas do que as que são de sua especialidade, têm sempre apelado ao esquema fato-valor denunciado por Nancy Pearcey, em A Verdade Absoluta. Eles julgam-se mais neutros, cobram-nos autoridade, mas quando dizem que o aborto é questão de “saúde pública”, ou que o aborto deve ser legalizado para o “bem” das mulheres que abortam clandestinamente, além de incorrerem em falácias grosseiríssimas, apelam eles mesmos conceitos de bem e mal que sua cosmovisão simplesmente não suporta! Se Deus não existe, não há bem algum em ajudar ou prejudicar quem pratica o aborto. Tal é sua inconsistência e sua falsa piedade!

Os valores religiosos e cristãos são deixados fora do debate como subjetivos, particulares, sem legitimidade nas questões “éticas” dos nossos tempos. E os cristãos historicamente são corresponsáveis por isso – desde que, pela ascensão do pietismo, nos acomodamos na zona de conforto da “tolerância estatal” de nossa própria existência como um departamento de Estado encarregado de criar não bons cristãos, mas cidadãos obedientes ao deus-Estado – por termos abandonado aquela vocação puritana que tanto influenciou os EUA e que até hoje serve como contrapeso aos abusos do estatismo. Nossos países estão secularizados; nossas universidades, humanistas. 

Cornelius Van Til ressaltou a importância de educadores cristãos para enfrentarmos as presunções humanistas e trazer o cristianismo de volta à batalha. O homem ocidental está confuso, perdido por falsos messias, cego para o próprio pecado. Sobre a modernidade, é elucidativo o comentário de Guilherme Groen Van Prinsterer, intelectual e estadista holandês, que influenciou Abraham Kuyper, no livro “Incredulidade e Revolução”, de 1845.

Para podermos medir o peso real da influência fatal deste século [século XVIII], devemos ter presente que o que ele fez foi converter o bem em mal. Me refiro a seu programa em favor da 'justiça', da 'liberdade', da 'tolerância', da 'humanidade' e da 'moralidade'. A princípio esta era se vestiu com estas ideias, assim como Satanás pode se disfarçar de anjo de luz. Estas ideias não foram cultivadas em seu próprio campo, mas em terreno cristão. Uma vez que a ortodoxia não foi capaz de preservar sua rica herança, caiu nas mãos dos filósofos, e o que eles fizeram com ela? Apesar de toda a jactância deles, estes tesouros arruinaram-se sob sua administração, coisa que não deve assombrar-nos. Querer reter as conclusões, abandonando as primeiras premissas; reter as águas enquanto tapam a fonte. Querer desfrutar da sombra, enquanto cortam os galhos da árvore. É de esperar-se que plantas que cresceram às margens da correnteza do evangelho se sequem se as transplantarmos para a terra seca. Pior ainda, em um terreno venenoso como o do ateísmo, as plantas se converteram em vegetais que, embaixo de suas cores brilhantes e doces fragrâncias, escondem toxinas mortais. As ideias de liberdade, tolerância, etc. – palavras mágicas que o homem pensou resumir como cume da sabedoria e da felicidade – foram destruídas, desmoronando como meras palavras. De tal forma que não apenas não se cumpriram as promessas, mas que ocorreu exatamente o contrário. A injustiça suplantou a justiça; a coerção, a liberdade; a perseguição, tolerância; a barbárie, a humanidade; e a decadência, a moralidade.

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Autor: Antonio Vitor

http://bereianos.blogspot.com.br/2016/12/cristianismo-e-aborto.html

sábado, 18 de março de 2017

Cristo vive em você?


“Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim... - Gálatas 2:20

O tema da santificação é, talvez, um dos menos polêmicos entre cristãos. É consenso que o cristão deve santificar-se, embora alguns possam migrar para o extremo de, inconscientemente, adotar a santificação como ferramenta de justificação diante de Deus. Mas nós sabemos que a justificação ocorre em um momento pontual da conversão, fruto de uma ação externa e sem qualquer participação do crente. A santificação é, então, um tipo de complemento a esse processo, mas não determinante para a salvação. Não é uma causa da conversão, mas uma consequência, com efetiva participação do cristão, sem a qual não se verá ao Senhor (Hb 12:14).

Não raro, em alguns círculos reformados, qualquer alusão à temática traz em sua sombra os vestígios das exacerbações dos usos e costumes de comunidades pentecostais. Alguém fala em santificação e o alarme de regras dispara na cabeça do crente: “mas é pela graça, não por obras”. Sim, a salvação é pela graça, mas quando se fala em santificação, ao menos idealmente, não se está discutindo a salvação, mas a prática cristã diária. Não se trata de como você começou sua jornada, mas de como você está agora e irá terminar, se é que você se vê como peregrino neste mundo.

Se por um lado as obras da fé foram alçadas por certos grupos evangélicos e católicos a um patamar elevado até o nível da fé salvífica, por outro acabaram sendo desvalorizadas pelos mais radicais advogados da salvação pela graça. Talvez por esse motivo a providência divina tenha feito Tiago entrar no Cânone. Entre esses dois extremos existe a fé que é seguida pelas obras, de modo que uma sem a outra é morta (Tg 2:26).

A santificação está intimamente ligada às obras. Um cristão que não experimenta a santificação terá enorme dificuldade em praticar boas obras. Na verdade, eu diria que esse cristão não existe! Não é possível que um cristão não se santifique, assim como não é possível que uma árvore boa dê frutos ruins continuamente (Mt 7:17). Não é que a fé dependa das obras para operar a salvação, mas se trata de não ser possível que haja uma fé salvífica que não opere boas obras (Tg 2:26), assim como uma fonte doce não pode deitar água amargosa (Tg 3:11).

A prática das boas obras é um reflexo do processo de santificação. Um cristão que pratica obras sem santificar-se estará fazendo qualquer coisa que não uma “boa obra”, porque a santificação exige separação ao Senhor, assim como uma obra só será boa se ao Senhor ela for dedicada. Não faltam ateus praticando atos altruístas. Mas, para Deus, estas atitudes não possuem o valor espiritual que têm aquelas que resultam da fé, porque não se trata do que é feito, mas da motivação do coração, isto é, da consagração a Deus.

Contudo, o santificar-se, o separar-se para Deus, só é possível de uma única forma: Cristo habitando no crente, o que, por sua vez, só pode ocorrer se o crente morrer para si. Como consta no texto de Gálatas 2:20, Cristo só pode viver em você se o seu “eu” estiver morto. Não se trata de algum tipo de possessão, mas de uma metáfora bíblica para mostrar que ou você é como Cristo ou você não é convertido. Não há meio termo, assim como não há morno aceitável. Ou você é frio ou quente. Se você é morno será vomitado (Ap 3:15-16), e melhor lhe seria que fosse frio! Não pode o velho e o novo homem coexistirem na mesma pessoa. Não há espaço para concessão no Evangelho. Quem com Cristo não ajunta, espalha. Se Cristo, por meio do Espírito Santo, habita no crente, então não se espera menos de um crente que atos que reflitam a nova pessoa que ele é, ainda que em meio a tropeços e deslizes.

O fato é que não faltam crentes vivendo como se não fossem templos do Espírito Santo. Agem como se seguissem algum código de ética descrito em um manual de bons modos do Clube Dominical. Evitam vícios famigerados, usam roupas recatadas, filtram palavras de baixo calão e mantém um hábito primoroso de frequência às reuniões da igreja, mas seus corações são mornos e sua graça é seletiva. As disciplinas espirituais até podem estar presentes, mas são mais notáveis quando em público. São apegados ao dinheiro e tudo mais de material, consumistas vaidosos, despreocupados com a pregação do evangelho e esvaziados de amor.

Não quero, aqui, parecer um juiz carrasco e mesquinho que olha de cima do seu muro a sujeira do vizinho enquanto seu quintal está um caos. Sim, eu bem lembro que Jesus advertiu sobre o argueiro no olho. Mas, muito embora eu aqui tenha elencado algumas práticas nefastas que subjazem sob a aparência de religiosidade, o que importa, realmente, é saber se vemos o Espírito de Cristo naqueles que o professam. Importa saber se vemos a retidão em amor e integridade naqueles que se dizem seguidores de Jesus. O Salmo 15 é um bom guia prático.

O aspecto preocupante não é que o cristão peque. Isso é normal e esperado. O que me inquieta é a displicência com que o processo de santificação é encarado, e por consequência a compreensão da necessidade de arrependimento diário. Se Cristo vive em mim, quão grande responsabilidade pesa sobre minha cerviz. Não se trata do peso do serviço em si, pois o serviço a Cristo feito em amor resultará em um fardo leve, mas da responsabilidade pelo nome que levamos e pela missão que recebemos.

A nós é dito que somos o sal do mundo e a luz nas trevas. Ser converso não implica em nada menos do que iluminar o ambiente que nos cerca, refletindo a luz de Cristo que há em nós. Se já não sou eu que vivo, então meus anseios de autorrealização e sonhos de consumo se tornam secundários diante da primazia do reino de Deus em minha vida. Não é possível, logo, viver para Cristo se não matarmos nosso homem interior, o que implica renúncia e abnegação.

Sim, é pela graça que somos salvos, e é pela graça que nos santificamos e fazemos qualquer boa obra, mas de modo algum a graça de Deus em minha vida anula a responsabilidade que tenho de a cada dia fazer morrer meu “eu” e deixar que Cristo viva em mim.

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Autor: Renato César

http://bereianos.blogspot.com.br/2017/01/cristo-vive-em-voce.html

GUARDAR O SÁBADO OU O DOMINGO? - AUGUSTUS NICODEMUS


sexta-feira, 17 de março de 2017

Como vencer o pecado da pornografia?


Não me delongarei grandemente no assunto proposto, pois muito já se tem dito sobre a pornografia, de modo que pretendo ser bastante direto.

Já disse certo autor que a diferença entre os "grandes cristãos" e os de nossos dias, é que aqueles tinham a consciência de que eram fracos, enquanto nós sustentamos a falsa ideia de que somos fortes. Ele estava certo.

A tentação às coisas pornográficas, sejam elas pelo computador ou andando pela rua e cobiçando as mulheres alheias (seja você casado ou não), quase sempre acontece nos momentos em que nós pensamos: "não vai acontecer nada". Sim, não minta para você mesmo. Nós homens (mas sem excluir as mulheres) sabemos que as inúmeras vezes em que caíamos neste pecado, há íntima relação com uma falta de confiança no Espírito Santo do Senhor, de maneira que quando nos apercebemos, já estamos envoltos ao pecado.

Sobre este "caminho a percorrer" até a consumação do pecado, bem delineou o salmista em seu Salmo 1. Assim lemos: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores" (Sl 1.1).

Observemos como em primeiro lugar, existe o ouvir do conselho dos ímpios, isto é, aqui em nosso assunto, passamos a ouvir as conversas ímpias sobre prostituição, fornicação, pornografia, traição (no local de trabalho, faculdade, antigos colegas...) e isto acaba sendo, por vezes, colocado em nossas vidas como algo bom, desejável e glorioso - mesmo que saibamos não ser assim! Em segundo lugar, se damos ouvidos ao conselho dos ímpios, logo nos detemos nos seus caminhos e passamos a cogitar a possibilidade de praticar tal pecado, afinal, parece ser algo tão bom! Em terceiro lugar, se já seguimos os passos anteriores, então acabamos por nos assentarmos junto aos escarnecedor e cometemos os mesmos pecados que eles.

Voltando ao perigo de nos acharmos fortes, se visualiza, então, que o primeiro passo para se vencer o pecado da pornografia, é reconhecer que, sem Deus, nada podemos fazer, conforme o Filho já nos disse: "sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5). Mas este passo continua, de modo que devemos, igualmente, reconhecer que não venceremos esta tentação. Explico.

É comum os cristãos interpretarem a Escritura de maneira equivocada, como, por exemplo: "Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tg 4.7). Daí o crente deduz que, se ele resistir durante algum tempo às tentações, chegará o momento em que o Diabo não mais o tentará. Entretanto, em sintonia com o restante das Escrituras, aprendemos que as tentações são umas das fontes de Deus para nos fortalecer - "Bem-aventurado o homem que sofre a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam" (Tg 1.12). 

Ademais, devemos lembrar que a Escritura registra o brado do apóstolo, nos mostrando que até mesmo os mais ilustres cristãos passaram por sequências de desastres espirituais: "Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim [...] Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado" (Rm 7.14-17; 24-25). É evidente que o apóstolo não está afirmando que existem "crentes carnais", mas sim que naturalmente o homem é vendido ao pecado e que por isso, enquanto aguardamos ansiosamente a redenção desta vida (Rm 8.22-23), percebemos o quão necessitados somos de Cristo, de maneira que quando damos vazão à natureza pecaminosa, fazemos o que sabemos ser pecado e não realizamos o que temos a ciência de ser santo e agradável ao Senhor.

Portanto, um grande erro cristão é crer que ele pode viver sem determinadas tentações. Crente, por favor, ore ao Senhor e tenha a certeza de que, mesmo sendo você livre de certas ciladas do inimigo, sempre este investirá contra a vida dos Seus santos, "porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1Pe 5.8). 

É preciso lembrar, outrossim, que se hoje você é jovem e é tentado com a pornografia, não espere que a idade faça você perder estes desejos, afinal, a natureza pecaminosa, ainda que "perca suas forças sexuais" com o passar do tempo, ela se manterá muito firme em sua mente, de maneira que não se deve ver o definhar do corpo físico como sinônimo de santidade ou livramento do pecado, pois a Escritura é certeira: "E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gn 6.5 - grifado agora). Lembrando, também, do que nos diz Jesus: "A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso" (Lc 11.34).

Bem, mas como, então, podemos fazer para vencer esta terrível tentação e que a tantas vidas e famílias têm destruído? Você deseja uma resposta sincera ou uma paliativa, isto é, momentânea? Se deseja algo para este momento de crise, então a resposta é objetiva, bastando seguir alguns passos:
- Pare de usar o computador; sim, possivelmente você pode - lembre de que é melhor entrar no Reino dos céus aleijado, do que ir com todo o corpo para o inferno (Mc 9.43).
- Se você realmente não tem opção, então peça para alguém lhe supervisionar - é melhor confessar o pecado e ser sarado (Tg 5.16), do que viver na falsidade e pecado.
- Sendo casado, converse com seu cônjuge e exponha sua dificuldade. Você tem a obrigação de fazer isso (clique aqui para ler um texto importante neste sentido) e seu cônjuge é seu melhor amigo, de maneira que o poderá sustentar e ajudar.
- Procure transitar por ruas onde a "poluição visual" seja menor.
- Limite seus passatempos e amizades, a fim de poder ser fortalecido.

Todavia, se o seu desejo é realmente ser livre (sem excluir os conselhos acima), eu recomendaria uma única coisa: ore, meu irmão(ã). Não existe nenhuma receita para "nunca mais ter problema com a pornografia" e eu não ousaria lhe dar "10 passos" ou "20 coisas para fazer", como se isto fosse resolver este pecado. Entenda, porém, que a Escritura nos é firme em nos dizer que nós sempre lutaremos contra o pecado, afinal, "a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis" (Gl 5.17). Quer dizer, não espere nunca mais ter dificuldades com a pornografia.

Ademais, a Escritura nos dá uma série de exortações neste sentido de manter a oração e demonstra firmemente que, enquanto estivermos nesta terra, precisaremos buscar muito ao Senhor. Convém, porém, lembrar das santas palavras, sempre que você incorrer neste pecado: "Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras" (Ap 2.5).

Em tempo, ainda, não raro a pornografia é a primeira porta para demais desgraças, conforme lemos: "Um abismo chama outro abismo" (Sl 42.7). Fuja da aparência do mal (1Ts 5.22)!

Para alentar os corações que constantemente caem neste pecado, é bem verdade que a Bíblia diz, "vai-te, e não peques mais" (Jo 8.11), mas também nos dá o conforto: "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus" (Sl 51.17).

Portanto, da próxima que pecar com a pornografia, vá até Cristo e n'Ele busque guarida, porque como nos diz o salmista, "Foi-me bom ter sido afligido, para que aprendesse os teus estatutos" (Sl 119.71) e também como Davi, o qual após numerar a Israel e reconhecer o seu pecado, firmemente expressou: "Então disse Davi a Gade: Estou em grande angústia; caia eu, pois, nas mãos do Senhor, porque são muitíssimas as suas misericórdias; mas que eu não caia nas mãos dos homens" (1Cr 21.13 - grifado agora). 

Melhor nos será ser castigado por Deus e sofrer certas disciplinas, "Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho" (Hb 12.6), do que nos afastarmos d'Ele e ficarmos sem correção, afinal, "se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos" (Hb 12.8).

Que Deus abençoe a todos os cansados e abatidos. Que Ele nos encha de um profundo senso de pecaminosidade, a fim de sempre buscarmos ao Seu Filho, o qual pela Igreja se entregou (Ef 5.25) e por ela tudo venceu. 

Deseja vencer este pecado da pornografia? Então obedeça a Escritura, pois "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça" (1Jo 1.9).

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Autor: Filipe Luiz C. Machado

http://bereianos.blogspot.com.br/2016/12/como-vencer-o-pecado-da-pornografia.html

COMO OS PLANOS DE DEUS SE ESTABELECEM QUANDO APARENTEMENTE O DESOBEDECEMOS? - AUGUSTUS